“Professor, escritor aspirante e leitor voraz nas horas vagas”. É assim que o livreiro manauara Marcelo Abreu, 35 anos, se define em sua página pessoal. Mas cá entre nós: bota voraz nisso! Com poucos meses de existência do site, Marcelo já conta com 823 livros adicionados à prateleira, dos quais 314 são obras lidas e 506 aquelas que ele deseja ler. Além disso, participa de 44 comunidades, sendo moderador de boa parte delas, como as de Agatha Christie e Dan Brown.
Não é de se admirar que alguns usuários de O Livreiro tenham achado que se trata de um membro da equipe do site. Nada disso. Marcelo é mais um dos membros que chamou a atenção pela paixão descarada e sem pudores pela literatura, que começou na infância, com os gibis do Recruta Zero, da Disney e Hanna-Barbera. O conhecimento adquirido pelos livros lhe rendeu boas histórias. Como, por exemplo, o fato de ter sido o primeiro da família, aos 8 anos, a descobrir o que era um ornitorrinco. E mais: em uma entrevista de emprego, impressionou ao discutir as questões do Proálcool graças às informações de um livro infanto-juvenil. Mas isso é assunto que você confere logo abaixo, no papo que O Livreiro teve com o internauta.
O Livreiro: A paixão pelos livros é coisa antiga? Vem de quando?
Acho que nasceu na infância. Sabe aquela sensação de que você já nasceu alfabetizado, lendo de tudo? Comigo funcionou desta forma. Desde que eu me entendo por gente, lembro nitidamente de ter um livro em mãos. E graças ao destino, recebi o apoio da minha família, como minha mãe e meu pai, que também tinham o costume de ler. Minha mãe, com suas “Júlias”, “Sabrinas” e “Biancas” da vida e meu pai com os gibis do Recruta Zero, da Disney, da Hanna-Barbera e muitos outros. Uma outra pessoa muito importante na minha formação de leitor foi uma tia minha, que quando vinha passar feriados e férias aqui em casa, contava muitas histórias para mim e minha irmã, antes de irmos dormir, à noite. Quando casou com meu tio Antonio, que era funcionário dos Correios, sempre mandava para mim uma variedade de gibis que ele ganhava de cortesia das editoras. E todo sábado era sagrado: meu pai comprava um gibi. Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Recruta Zero, Pica-Pau, Luluzinha, Bolinha. Todos eram muito bem-vindos.
O Livreiro: O tamanho da sua prateleira impressiona. Como faz para ler tantos livros?
Simplesmente aproveito muito os momentos de folga. Faço a linha “caseiro”, não saio muito de casa e viajo muito pouco por causa da grana curta, pois trabalho apenas meio período, como funcionário público, além de dar aulas particulares para umas poucas crianças em casa. Por isso, sempre acaba sobrando um tempinho, principalmente à noite. Quando não o aproveito para trabalhar em meu primeiro livro, leio bastante, principalmente antes de dormir. Sem falar que sempre carrego um livro comigo aonde quer que eu vá. Uma grande mania minha.
O Livreiro: Você é dono de um blog, o Pérolas da sublimação. Conte um pouco mais sobre o objetivo dele.
Sobre meu blog, ele é novinho, sem muitas pretensões, criado apenas há alguns meses por sugestão de um amigo, também blogueiro, que queria conhecer um pouco das coisas que escrevo e um pouco da minha subjetividade, tudo no mesmo pacote. O nome surgiu por conta da minha paixão por Psicologia e como um blog é espaço para divulgar idéias, produções artísticas e também um lugar para desabafar mágoas, sempre tentando torná-las algo positivo. Achei o nome perfeito!
O Livreiro: o que acha da proliferação de blogs na internet e a relação com a leitura e escrita?
Os blogs estão aí para acrescentar algo, mas muitos (como o meu) infelizmente permanecem anônimos e principalmente inacessíveis a uma boa parte da população, digitalmente excluída. Mas acredito que eles jamais substituirão o bom e velho livro, que apreciamos tocar, cheirar, namorar. Uma tela de computador é muito impessoal. Um livro carrega consigo toda uma história.
O Livreiro: tem algum livro de cabeceira?
São três, escritos por um autor esotérico chamado Nei Naiff. Um de runas, um de tarô e outro sobre I-Ching, para consultas rápidas de mensagens que ajudam a inspirar e refletir sobre o dia-a-dia. Embora não seja religioso, gosto do teor dos livros. Também estou lendo três obras no momento: Um mundo perfeito, do escritor estreante Leonardo Brum, com quem iniciei recentemente amizade virtual para troca de ideias; Amanhecer, da Stephenie Meyer, para decifrar o porquê de tanto sucesso por trás da saga, que não gosto muito; e Sombras da Noite, de Stephen King. Adoro contos de horror e mistério, ainda mais escritos por um mestre no assunto.
O Livreiro: que livros você recomendaria aos leitores do site?
Nessa vida, as pessoas não devem morrer sem antes ter lido O pequeno príncipe, do Saint-Exupéry (primeiro livro que ganhei, aos 8 anos), Revolução dos bichos e 1984, de George Orwell, O Senhor das Moscas, de William Golding e Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. Todos obras sublimes e indispensáveis. O último, especialmente para quem deseja ser escritor.
O Livreiro: conte mais sobre o livro que você diz estar escrevendo. Sobre o que é? Você tem planos de publicá-lo?
O livro que escrevo é o primeiro de uma série, dedicado às crianças, jovens e adultos. Conta a história de pessoas de várias nacionalidades, credos, cores de pele, religiões, orientações sexuais que se unem para lutar contra um inimigo em comum, disposto a destruir a humanidade. No processo, terão que conviver com suas diferenças e com muitas situações inusitadas. Não sei se chegarei a publicar. Ainda preciso levantar capital e a única editora decente aqui em meu estado prioriza apenas livros com temáticas amazônicas, uma coisa bem provinciana. Minha obra ultrapassa as fronteiras brasileiras. É um projeto bem ambicioso e espero conseguir concretizá-lo.
O Livreiro: você deve colecionar histórias curiosas envolvendo a leitura. Pode contar alguma?
No momento, lembro de duas. Fui a primeira pessoa da minha família, aos 8 anos, a descobrir o que era um ornitorrinco, para o espanto dos demais, que o viram pela primeira vez pela TV. Lembro que minha mãe me perguntou de onde eu conhecia esse bicho e eu disse que tinha lido a respeito em um livro de Ciências. Numa seleção de emprego para a Petrobrás, em 93, quando eu e mais nove candidatos visitamos a base petrolífera de Urucu, fui o único que soube falar sobre o Proálcool, na maior inocência. O homem responsável pela seleção me perguntou onde eu tinha ouvido falar disso e eu disse que tinha lido em um livro da coleção Vaga-Lume, o Açúcar Amargo, do Luiz Puntel, que narra a vida sofrida de uma família de bóias-frias. Claro que ganhei o emprego, aos 17 anos!