A ideia é ótima: um site que sugere que livro começar quando o que você está lendo acabar. A interface é funcional e elegante. A questão é o conhecimento em que o Book Seer (que poderia ser traduzido como… livreiro) se baseia para sugerir ao leitor o próximo livro.
É um site anglófono, logo as expectativas de O Livreiro são modestas. Por maior que sejam Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, entende-se que um site não pode conhecer a fundo os detalhes da tradição literária de tantos países no mundo. Tendo isso em mente, decidimos fazer um test-drive paciente e contemplativo, como cabe a um bom brasileiro cordial. Adiante, alguns resultados.
Dom Casmurro – Descontando as diversas indicações de outros livros daquele que às vezes aparece aqui como Joachim Maria Machado de Assis (o que seria básico), encontramos uma seleção superficial da literatura brasileira clássica: Iracema, de José de Alencar, O triste fim de Policarpo Quaresma, de Afonso Henriques de Lima Barreto, e O Cortiço, de Álvares de… Azeredo. Machado deve ter estranhado a presença de Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, Uma janela em Copacabana, de Luiz Alfredo García-Roza e Macunaíma, de Mário de Andrade. Mas ainda não entende como podem ter ligado sua obra mais conhecida ao Tigre branco de Aravind Vinga, aos Homens que não amavam as mulheres, de Stieg Larson e, a despeito de toda simpatia que possa sentir pelo moço, a Sonhos de meu pai, do presidente americano Barack Obama. Ficou todo orgulhoso, contudo, de ser lembrado junto a 2666, do chileno Roberto Bolaño. Mais por admiração que por afinidade.
1808 – A busca pelo livro de Laurentino Gomes trouxe diversas obras de caráter histórico, indicando que o site, como bom gringo em terra estrangeira, consegue entender números: Náufragos, traficantes e degredados: As primeiras expedições ao Brasil, 1500-1531 (Eduardo Bueno), D. Pedro II (José Murilo De Carvalho), Mauá: empresário do Império (Jorge Caldeira) e A Escrava Isaura (Bernardo Guimarães). Mas que diabos fazem Nelson Rodrigues e seu A cabra vadia vagando por aqui?
Mãos de cavalo – o romance de estreia de Daniel Galera gerou quase os mesmos resultados de Dom Casmurro. Mister Seer pensa que nos engana. Surpreendentemente, a diferença ficou por conta de Dedo negro com unha, de Daniel Pellizzari, que aparece aqui apenas como “Somebody”. Bem informado, ainda que com má memória para nomes.
Dois irmãos – O livro de Milton Hatoum leva diversos outros seus e a Budapeste, de Chico Buarque (esses dois andam unha e carne ultimamente). Aparecem Amar se aprende amando, de Drummond, e as 101 crônicas de Comédias da vida privada, de Luis Fernando Verissimo. E também um certo The Thackery T. Lambshead Pocket Guide to Eccentric and Discredited Diseases (”O guia de bolso Thackery T. Cabeça-de-ovelha de doenças excêntricas e desacreditadas”), de um certo Jeff Van der Meer, que parece ser um livro de humor. O Livreiro se abstém de comentar.
Morangos mofados – Caio Fernando Abreu quase não se conecta com os clássicos brasileiros, mas atrai 1933 foi um ano ruim, de John Fante (o que faz algum sentido), Feliz ano velho, de seu contemporâneo Marcelo Rubens Paiva, e Máquina de Pinball, de Clara Averbuck (também tratada com a frieza de um “Somebody” aqui). O penetra da festa: Domenico de Masi e seu Ócio criativo.
Vergonha dos pés – O Book Seer deveria sentir vergonha é da quantidade de resultados ligados ao livro de Fernanda Young: zero.
Grande sertão: veredas – O clássico de Guimarães Rosa não gerou qualquer resultado. Mister Seer, o que o senhor acharia se não soubéssemos o que é o Ulisses de James Joyce? Shame on you.
Resumindo: nosso colega livreiro americano é um ótimo amigo a se ter quando se quiser pular de Joyce para Virginia Woolf, ou de William Faulkner para Cormac McCarthy, mas não espere que ele lhe diga algo sobre literatura brasileira. Para alguns americanos, a capital do Brasil sempre será Buenos Aires.