Por Ricardo Cury , via Eu, Livreiro*
Meu avô é um homem de 90 anos, advogado e hoje sua única ocupação é refazer as poesias que criou no decorrer da vida, buscando o sinônimo que seja mais adequado pra entrar no lugar daquela palavra; palavra esta que em algum instante da sua vida foi a palavra perfeita: “Quando vier aqui, traga aquela edição do meu livro que te dei. Mudei uns versos”, me diz quase todo mês. Ele imprime a palavra nova e cola no livro mesmo, em cima da palavra antiga. Tenho muitos livros dele aqui em casa. Cada um com uma palavra diferente, tudo pelo parnaso.
“Com 90 anos não posso mais advogar. Faço isso pra ocupar a mente”, justifica. Para ele, Olavo Bilac é o maior. Ele tinha um livro chamado Tratado de Versificação, que é um livro onde Bilac explica todos os caminhos do parnaso. Era uma edição original que o acompanhava desde sempre.
Um dia recebeu um jovem poeta soteropolitano em sua casa dizendo que queria conhecê-lo. Depois de algumas horas de conversa, em uma distração de meu avô, o tal jovem poeta se mostrou um jovem larápio. Segundo meu avô, bem melhor larápio do que poeta. “Estava com ele nessa sala, mostrando alguns livros quando o telefone tocou e eu fui atender. Ele então, repentinamente, disse que tinha de sair e se foi com meu livro na sacola”.
Porém, apesar dos pesares, meu avô faz questão de dizer que sabe tudo daquele livro, que não precisava dele pra poder aplicar as regras. Inclusive até se deu ao luxo, com todo o respeito, de corrigir Bilac:
– No 13° soneto de Via Láctea, tem um cacófato”, diz meu avô.
Os versos em questão são: E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas”.
– “Só quem ama” tá errado. Soquem é socar, é cacófato” – diz.
Segundo as leis do parnaso, cacófato é crime. Contudo, mesmo sabendo tudo, o ato de não ter o livro na estante era doloroso. Era como não ter aquele amigo que estava ali por perto sempre que precisava. Essa magia do livro é realmente algo inquietante. Algo que os e-livros nunca terão.
Fazendo uma matéria sobre sebos, fui a um e aproveitei pra perguntar: – Tem Tratado de Versificação? O cara procurou nas estantes até que encontrou uma edição.
– Quanto é?
Ele me mostrou a etiqueta com o preço:
– R$250, mas pra jornalista cobro metade.
Indo embora, lembrei que meu avô escreveu um livro que se esgotou e que tem as produções dele que mais gosto. Um livro muito divertido de sátiras sobre a Bahia chamado Urtigas e Malaguetas. Conhecia os textos, mas nunca tive o livro.
– Será que você teria o livro Urtigas e Malaguetas? – perguntei.
O cara procurou nas estantes até que encontrou uma única edição. Ele me mostrou a etiqueta com o preço:
– R$50, mas pra jornalista…
– Meu livro tava custando cinqüenta reais?! Que absurdo! Um livro não pode custar isso tudo – disse meu avô. Gostou muito do presente que dei e dia desses me ligou pedindo pra eu levar a minha edição de Urtigas e Malaguetas.
– Mudei umas coisas – disse ele.
*Eu, Livreiro é a seção dedicada a relatos pessoais, histórias ou entrevistas, sobre livros, autores, eventos e projetos literários dos próprios usuários da nossa rede social.