Ilha do medo: nada é o que parece

Postado por Douglas Duarte em 11 de março, às 19:05 em Notícias  |  Comentários (2)

shutter-island-main A história de Ilha do medo é parente, entre outras, das de obras como Coração satânico, O sexto sentido, Uma simples formalidade, Spider e, esticando a corda, Édipo Rei. A única coisa ruim de estar com gente como Tornatore, Alan Parker, Shyamalan, Cronemberg e Sófocles são as comparações, e não a companhia. Nessas tramas, vemos um homem perdido, buscando sentido num mundo hostil, às vezes ignorando a resposta que está em suas barbas. Tipo de história que pressupõe mão firme do diretor e do autor, nesse caso, o escritor Dennis Lehane.

“Firme” não é a melhor forma de caracterizar Martin Scorsese, com a batuta do filme. E isso não é uma crítica. Em grande parte, Scorsese continua um diretor interessante precisamente porque, às portas dos 70, ele ainda se comporta como um moleque quando filma. Moleques, claro, erram, mas quando acertam, é com vigor, com uma graça que a certeza não permite. “Firme” tampouco é uma palavra apta para descrever Dennis Lehane desse livro. Lehane sem dúvida se sente à vontade escrevendo novelas de crime – ele é certamente um dos melhores escritores do gênero em atividade – mas Ilha do medo, escrita logo depois do sucesso Sobre meninos e lobos, e que saiu aqui no Brasil em 2003 como Paciente 67, não é uma história de crime. Ou antes, apenas parece ser uma história de crime, com seus tiras durões e personagens suspeitas. Na verdade, é uma trama de mistério, o que parece um detalhe, mas não é.

DivulgaçãoNo filme, vemos o amargurado Teddy interpretado por Leonardo DiCaprio chegar a Shutter Island, um hospício para criminosos numa inóspita ilha perto de Boston. Teddy está lá para solucionar o desaparecimento de uma paciente e também para acertar contas com seu passado (mais um que outro, como gradualmente vamos descobrir). Todos no lugar se comportam de forma suspeita. O paradeiro da mulher é tão misterioso quanto a sanidade de todos – a começar pela do investigador, que já começa o filme lavando o rosto e dizendo a si mesmo no espelho algo como “se segura, cara. Segura a onda”.

Já nos primeiros planos, cigarros, mãos e rostos mudam de posição de um corte para outro. O barco onde está Teddy sai do meio de uma espessa bruma. A chegada ao hospício, que em outras mãos seria normal e cheia de suspense, faz com que Scorsese dê lancinantes estocadas na orquestra da trilha. Tudo parece um pouco demente. Mas deliberadamente demente. É só lá para o meio do filme que percebemos que as mãos, tanto de Scorsese quanto de Lehane, começam a escorregar. Há uma barriguinha saliente, o que incomoda mais até porque tudo até então era puro músculo e expressividade.

Dá para argumentar que Scorsese se sente muito menos à vontade entre os procedimentos bárbaros e a moral vitoriana latente em um hospício dos anos 50. O forte do diretor de Os bons companheiros e A última tentação de Cristo sempre foram os procedimentos bárbaros e a moral apoiados numa tradição mais cristã, latina. Lehane, por seu lado, às vezes parece programado a voltar a velhos cacoetes explicativos que funcionam num livro policial, mas pifam aqui nesse território livre.

O grande paralelo aqui não é com o noir, com novelas policialescas ou romances de detetive, mas sim com cineastas que passeiam à vontade pelo delírio, o sonho, as pulsões do inconsciente. Luis Buñuel, entre todos, estaria à vontade no set desse filme que passa boa parte do tempo dentro da cabeça de suas personagens.

Mas a despeito de todas as falhas, é aí que reside a beleza de assistir um Scorsese até hoje. É instável como Teddy, como os pacientes do hospício, como o barco que nos levou para lá. Às vezes, o risco de se lançar rumo ao desconhecido vale a viagem.

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2 comentários para “Ilha do medo: nada é o que parece”

  1. quero so lançamento no meu email

  2. os melhores filmes de terror

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