Quadrinhos clássicos na escola

Postado por Douglas Duarte em 10 de março, às 17:13 em Notícias  |  Comentários (10)
O homem que sabia javanês por Jo Fevereiro e Sabastião Seabra

O homem que sabia javanês por Jo Fevereiro e Sabastião Seabra

“Qual a diferença entre um autor-defunto e um defunto-autor?” A pergunta, lançada todos os anos contra leitores iniciantes em escolas de todo o Brasil – e seguida muitas vezes de um vacilante silêncio – é um entre muitos exemplos de como um livro gostoso como Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, pode se tornar um suplício0. Uma novidade tem se firmado nesse cenário nos últimos anos: as versões em quadrinhos para clássicos da literatura, uma forma de tornar mais palatável para o público jovem obras de autores como Machado, Lima Barreto, José de Alencar, Manuel Antonio de Almeida, Lima Barreto e outros.

Mas antes de falar na possível solução, é bom pensar a respeito da natureza do problema. Um dos campeões de reclamações, em uma enquete informal e sem qualquer valor científico feita por este repórter, foi José de Alencar, mas também sobraram farpas para Machado, Jorge Amado e outros. Algumas respostas:

Iracema é o pior livro da história! Lutei horrores contra o sono folheando as páginas que descreviam os lábios de mel… Jesus, que lixo!”

Iracema. O livro mais chato EVER! Memórias póstumas de Brás Cubas eu nem terminei de ler. Helena…ai, a lista é infinita.”

“Achava todos uns chatos. Eu gostava mesmo da hora do recreio. Nenhum livro da época de escola me atraía.”

Atente, leitor: nenhuma das frases acima vem de gente que desgosta de livro. São tradutores, acadêmicos, jornalistas, escritoras, cineastas… gente que se orgulha das estantes que têm, que adora ler e às vezes vive disso. Se é gente que gosta de ler e se estamos falando de livros de valor literário inegável, o problema deve estar em algum lugar entre leitor e obra, certo?

Uma pista disso transparece em um comentário na comunidade dedicada ao escritor José Alencar aqui em O Livreiro. Diz o participante Eduardo Carrilho:

“Houve duas abordagens para o Senhora, na primeira vez, na escola, eu detestei, e li como se fosse um purgante. Já na segunda abordagem, com pouco mais de maturidade, até que gostei muito do livro e consegui fazer um paralelo com o meu cotidiano. Eu li O Guarani com um pouco mais de idade e por vontade própria (não foi forçado pela escola). Eu me lembro de conseguir ‘viajar’ lendo o livro e visualizar as paisagens e cenas que iam se passando enquanto eu lia. No final das contas, ficou uma impressão muito boa.”

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O cortiço de Ronaldo Antonelli e Francisco Vilachã

Será que o problema não é a forma e o momento em que essas obras são apresentadas? Afinal, que se saiba, Machado não escrevia para o público infanto-juvenil, nem Alencar. É aí que entra, por um lado, o crescimento do uso da literatura contemporânea na sala de aula, mais atual e coloquial, e, do outro, os quadrinhos. Esses últimos ganharam força especialmente desde 2006.

Naquele ano, o Ministério da Educação começou a incluir o gênero nas listas de livros do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Para se ter idéia, tiragens de quadrinhos e graphic novels no Brasil ficam entre três e cinco mil exemplares. Se um livro entra para o PNBE, imprime-se algo como 200, 300 mil exemplares.

Para as editoras, foi um ótimo negócio: boa parte do material que serve de base às adaptações está em domínio público – é gratuito. Para os quadrinistas, esse pessoal que geralmente tem problemas em fechar as contas no fim do mês, apareceu trabalho remunerado. Para o governo, uma iniciativa com cara moderna e democratizadora. E, na teoria, para os alunos também. Afinal, muita coisa boa foi produzida.

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O Brás Cubas de Sebastião Seabra

Duas das principais coleções são a da Ediouro/Agir/Desiderata, Grandes Clássicos em graphic novel, e a da Escala Educacional. A da Ediouro já nos legou uma ótima versão de O alienista, novela de Machado de Assis adaptada pelos prestigiosos gêmeos Fabio Moon e Gabriel Bá; e uma versão quadrinizada de O triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, com a assinatura de um dos monstros sagrados do quadrinho nacional, Edgar Vasques. Já a da Escala traz, em livros de preço mais acessível e direcionados primordialmente a estudantes, clássicos de Machado, Aluísio Azevedo, Lima Barreto e Manuel Antônio de Almeida, entre os nacionais, e nada menos que Cervantes e o dramaturgo russo Anton Tchekhov nos clássicos mundiais. A coleção brasileira da Escala começará a ser oferecida em troca de cupons do jornal carioca Extra ainda esse mês. E quem é membro de O Livreiro poderá ganhar a coleção completa antes de todo mundo, num concurso cultural que anunciaremos em breve. Veja a lista completa de títulos no blog Gibizada, de Télio Navega.

Ambas passam ao largo do tatibitati. A versão de O cortiço da Escala, assinada por Ronaldo Antonelli e Francisco Vilachã, por exemplo, é quase um thriller, com incêndios, brigas (entre homens e entre mulheres também), tiros e navalhadas. Não foi censurada sequer uma cena de amor entre Dona Isabel e a cocotte Leónie, coisa que coraria estudantes de décadas passadas, mas hoje é parte do dia a dia de qualquer adolescente urbano.

Diante de tudo isso, dá pra dizer que a coisa tem um lado ruim? Não exatamente ruim, mas há um risco. Falando sobre a nova edição de Policarpo da Agir, Paulo Ramos comenta, em seu Blog dos Quadrinhos:

“Houve sensíveis avanços na inclusão de quadrinhos na escola via governo federal. Isso não se discute. Mas alguém precisa lembrar às autoridades do Ministério da Educação que álbuns como este Triste fim de Policarpo Quaresma não são iguais à obra original, nem a substituem. Também não há ainda nada que comprove a premissa imaginária de que vá instigar a leitura do romance.”

Ramos, autor do livro Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula, tem um ponto: nem todas as adaptações deixam o gosto de “quero mais” que se sente ao fim da leitura do O cortiço de Antonelli e Vilachã ou do Alienista de Moon e Bá, que chegou a vencer um Jabuti.

O que você acha? Devíamos ler esses clássicos na escola? Os quadrinhos são um atalho para eles? Discuta abaixo e aproveite para conhecer nossa comunidade dedicada aos quadrinhos.

Algumas adaptações:

E alguns originais:

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Leia também:

» Reciclando os clássicos
» Resultado do Concurso Cultural O Livreiro & Extra
» Concurso Cultural – O Livreiro & Extra

Este post e seus comentários podem conter opiniões que não refletem o ponto de vista do Livreiro.

10 comentários para “Quadrinhos clássicos na escola”

  1. Helenita Dias disse:

    Os clássicos podem ser lidos na escola, sim, em especial agora que há essa possibilidade. Acredito que se o estudante positivar a leitura dos mesmos por esse atalho haverá aqueles – os mais motivados – que se sentirão impulsionados para retornar à obra original, até mesmo para comparar, visando à complementação de sua leitura, tornando-se, possivelmente, exímios leitores. É como um filme adaptado de um clássico, que após ganhar as telas desperta nossa curiosidade à investigação da obra. Toda experiência pode ser válida e, como tal, nada se perde em colocá-la na prática para se saber realmente dos ganhos que poderão ser obtidos. Instigar o jovem à leitura é um papel fundamental do professor nas escolas, e há meios muito simples de se fazer isso. Como educadora que sou, utilizo-me de vários recursos para despertar neles o prazer pela leitura.

  2. Confesso que na escola também achei vários clássicos chatos, mas de outros adorei! Senhora por exemplo gostei bastante. Minha professora costumava pedir trabalhos super divertidos das obras, acho que foi isso. Para Senhora fizemos um filme, para outro um colega fez uma história em quadrinho (olha que interessante e isso foi 12 anos atrás hein…). Acho que ler os livros no original é super interessante, mas porque não começar este contato de outra forma? Partindo de um filme, um quadrinho, um desenho animado, um teatro, para depois chegar no livro?

    • Concordo. Teve diversos livros que custaram para conseguir ler, mas diversos outros li com prazer, e “Senhora” com certeza foi o que mais gostei. Li mais de uma vez na época e tantas outras depois, é um livro fantástico e ter lido aos 13 anos não diminuiu meu prazer, apenas passou uma diferente mensagem.

      Acho que o que mais dificulta a leitura dessas obras (além de concordar que não foram escritas exatamente para o público infanto-juvenil) é a diferença do português empregado. Nesse aspecto, acho que quadrinhos bem feitos podem auxiliar e muito a leitura das obras, já que facilitariam o entendimento quando na faixa de 12 a 15 anos. Gostar de uma história sempre nos incentiva a ler outras obras do mesmo autor.

  3. Marcello disse:

    “O Alienista” do Bá e Moon foi uma das melhores Graphic Novels que já li, e incluo nessa lista “Watchmen”, “A Piada Mortal”, “Umbigo sem Fundo” e “Umbrella Academy”.

    Aos 7 anos ja lia Jorge Amado, por vontade própria, mas achava tão chato que mal completava 1 livro. Grande incentivo que tive de minha tia\madrinha que é professora de literatura e da Turma da Mônica que lia desde que aprendi a juntar sílabas.

    Se os quadrinhos não incentivam a ler, eu não sei o que incentiva, já que o recurso visual é o que mais chama a atenção dos iniciantes da leitura. O que eu sei é que eu adoro ler, mas quando se tratava de um livro da escola eu adiava até o ultimo minuto, quando não pegava o resumo só pra fazer a prova.

    Se no meu 2º ano, houvesse uma prova sobre a Graphic Novel de “O Alienista”, “Memórias Póstumas” ou “O Pagador de Promessa” em vez de seus romances intermináveis ninguém, ou quase, pegaria o resumo.

  4. Adorei “Memórias de um sargento de milícias”, lembro de rir muito lendo a história e de me deliciar com a linguagem do Manuel Antonio de Almeida. Gostaria de fazer o caminho inverso do proposto aqui: ler depois em quadrinhos, para sentir como o apelo visual faz diferença.

  5. Olá, na minha opinião os quadrinhos vêm somar e complementar os clássicos, mas não substituí-los. Queria apenas comentar duas coisas:

    - Não só clássicos da literatura brasileira são encontrados nos quadrinhos, recentemente vi numa prateleira um álbum com contos infantis (não lembro se grimm ou esopo) recontados por quadrinistas brasileiros.

    - E considerando os quadrinhos como arte, além dos clássicos em quadrinhos também deverão se pensar nos quadrinhos clássicos num futuro próximo.

    Abraços,

    Eduardo

  6. isabella disse:

    eu queria muito participar

  7. Keity Merci disse:

    Achei essa idéia o Máximo! Veio a Calhar… sou estudante e irei fazer uma Prova de Leitura e o livro que tenho que ler é: O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA. Embora já em mãos! Irei concerteza garantir o meu quadrinhos… Pena que não através do Olivreiro! Mais Parabéns essa foi uma boa notícia, assim quem sabe com essa iniciativa do JORNAL EXTRA. Incentive os jovens a leitura!

    Beijo Grande a todos

    keity

  8. Oi disse:

    Não li nenhum ainda

  9. Sou professora de língua portuguesa e através da minha divulgação, após receber esses livros, os alunos vão se interessar muito pelos os mesmos. Então preciso ganhá-los!

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