Adolescentes só se ferram: não bastasse estarem na fase mais instável de suas vidas, com tanta coisa diferente rolando e tantos altos e baixos, ainda são nivelados e vistos como puro estereótipo. Meninos arredios, cheios de espinhas, humor variável e interesse em vídeo-game/futebol/cinema e… mulher. Meninas tentando virar mulheres, espinhas disfarçadas, TPMs homéricas, interesse em compras/dieta/fofoca e… os Robert Pattinsons da vida. Aproxime-se de um (ou uma), para ver que o buraco é mais embaixo. Como a Fani, de Fazendo meu filme, livro que está virando saga, prestes a se tornar trilogia.
Fazendo meu filme é um livro que mostra os passos de uma adolescente dos dias de hoje, seguindo a tendência internacional apelidada de Chick Lit. A autora, Paula Pimenta, é uma mineira que não tem vergonha de se definir como mulherzinha. Fani, a personagem, é uma menina esperta e sonhadora que tenta fugir do tédio da rotina colégio/academia/shopping típica de uma garota de classe média de Belo Horizonte. Detesta as fúteis da turma, mantém um amor platônico por um professor, mudou de colégio recentemente e tenta se acostumar com os novos amigos. E, por falar em amizade, tem uma colorida no pedaço. Nada de original, né? Isso não é problema. Com esses ingredientes, Paula fez de Fazendo meu filme: a estreia de Fani, um livro bacana. Fofo, para usar o vocabulário da mulherada.
Aí a historinha por trás da ficção é assim: a vida comum de uma garota sai da cabeça de uma autora, chega ao coração de um monte de meninas e, graças a isso, passa a subir o degrau para se tornar uma autêntica Chick Lit: transformar-se em saga. Se no volume 1 Fani se dedicou à rotina escolar e a expectativa de um intercâmbio, a bola ficou quicando para a continuação: o mundo que se abre quando ela vai viver na Inglaterra. Aí está Fazendo meu filme 2: Fani na terra da rainha. E, engordando a fila de pedidos, a série já tem um número 3 prometido. Só falta a cereja do bolo (é uma questão de tempo): Fani, que é louca por cinema, virar personagem na telona.
A vida de Fani já é, por si só, multimídia. As conversas da história se dão por celular, messenger, bilhete em sala de aula, recortes de revista, email. Ela passeia por shoppings e clubes de Belo Horizonte e, em certas horas, dá quase para ouvir seu sotaque mineiro. Esse estilo fragmentado deixa o livro mais gostoso de ler. Os capítulos são abertos por trechos de diálogos de filmes que fazem a cabeça da menina (todos devidamente classificados com estrelinhas em sua dvdteca) e que, claro, têm algum paralelo o que vai acontecer nas páginas seguintes. Os trechinhos podem ser vistos no site do livro. São como extras de DVD, digamos assim.
Chick Lit no Brasil
Paula Pimenta está indo bem na trilha de sua principal inspiração, a best-seller Meg Cabot (aliás, tão fã que é da autora de O Diário da princesa, Pimenta concorreu e venceu um concurso para conhecê-la pessoalmente na Bienal do Livro do Rio, ano passado). Principal sucesso de Cabot, a princesa rendeu 10 volumes de histórias sobre suas aventuras. Fani está seguindo os passos, mas com personalidade. Os elogios de suas fãs costumam ter um ponto em comum: ressaltam que faz diferença ler sobre a rotina brasileira, para variar da enxurrada de opções de livro, filme e séries de TV sobre garotas americanas em suas high schools. Assim, ela passa a ocupar um lugar num nicho editorial que tem tudo para crescer no Brasil e que, hoje, tem como número 1 absoluto o fenômeno Thalita Rebouças, cuja série Fala sério já tem diversos livros e atrai multidões de adolescentes. As leitoras estão atentas, em seus blogs (como este) e até mesmo neste site que se define como “o primeiro brasileiro sobre Chick Lit” (aliás, lá está sendo realizada uma votação para eleger as melhores obras, autoras e personagens do gênero lançadas em 2009, vale a pena participar!)
O trabalho de uma autora deste segmento vai muito além da simples redação de histórias. Significa também lidar com seus fãs de maneira muito próxima, via blog, Twitter e redes sociais, sem contar as visitas às escolas. E o caminho para chegar aí não é fácil. Paula conta neste texto como o processo foi complicado. Mesmo depois de publicar, não sabia se tanto esforço teria resultado. Mas Fani se impôs e está amadurecendo.
A Chick Lit brasileira também está crescendo, aparecendo. O que isso significa? O primeiro é a habilidade de colocar gente que em geral não lê grudada num livro, não importa o seu tamanho. O segundo é conseqüência deste: nossas primeiras leituras são o passaporte para novas descobertas, novos gêneros e obras. O hábito faz o monge, e se não desenvolvemos o hábito de ler quando jovens, já era. Para completar, as fãs se espelham em suas musas-escritoras e ficam com vontade de escrever, comunicar, acreditar que sua própria história pode sim ser importante. Tomara que com isso surjam histórias ainda mais variadas de cores, classes sociais e estilos diferentes. Afinal, como falávamos lá no começo, adolescente tem de todo tipo.
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