Assim que cheguei, na primeira conversa que escutei sem ser chamado, um dos caras reclamava da generalização que “os caras da mídia” fazem com o povo da Campus Party, chamando todo mundo de nerd. É compreensível. Ambos os lados são compreensíveis.
Primeiro porque nunca na história desse país se viu tanto computador junto. Ouvi por aí que é, inclusive, o maior evento desse estilo do mundo. Além do mais, muita gente, mas muita gente mesmo daqui tem até um certo orgulho de ser chamado de nerd. Fora isso, quem participou de algum encontro de estudantes, quando universitário (AH, os Enecons), consegue reconhecer facilmente os signos que identificam a grande aglomeração de gente jovem no mesmo ambiente, dormindo e acordando sob o mesmo teto. A diferença, entretanto, é a desproporção entre os sexos: há muito mais máquinas que mulheres.
Já quem reclama da generalização também tem o seu quinhão de verdade. Encontra-se tanta gente diferente aqui que juntar tudo isso num mesmo saco é exatamente isso: uma generalização. E como sempre quando pegamos uma vista ampla, perdemos os pormenores. Mas – arrisco – é nos detalhes, nas particularidades que vamos entender o que é essa festa chamada de Campus.
Por exemplo, a droga consumida aqui é a cafeína. Toma-se café e energético como se fosse água mineral sem gás. Há uma mesa, do pessoal na região dedicada a discutir software livre, que estava fazendo uma pirâmide imensa de latinhas. Um desavisado que tropeçasse por lá poderia ser soterrado.
A ligação, quase simbiótica, entre homens e máquinas é também impressionante – mesmo para quem se preparou psicologicamente para o baque. As pessoas andam para cima e para baixo com o seu laptop, notebook, netbook etc., todos abertos, procurando um cabo da conexão de 10 giga para se conectar. Aliás e inclusive, curiosamente não há wifi confiável por lá.
Isso sem falar nas traquitanas produzidas pelo pessoal da área de modding (uma espécie de tunagem, que modifica carros ao gosto do freguês, mas no caso de computadores) e da robótica. Gabinetes para computadores com formato de personagens de videogames e um robô que toca berimbau, eu encontrei de tudo por lá.
Mas o que seria de um evento com milhares de pessoas sem as figuraças. O senhor que pilota um dirigível de propaganda me contou que, com 62 anos, trabalha nessa profissão há 20. Ele disse que chegou a ser até piloto de carreira, mas não gostou. O que ele queria, o que ele fazia desde criança, era construir aeromodelos. Conseguiu realizar um sonho de menino.
Uma pena que outras figuras sejam também profissionais do exotismo. São contratados para serem estranhas. Como o coroa que anda com uma fantasia saída de um game e anunciando alguma coisa que não reparei. Ou o super-herói que faz propaganda para o número de DDD do patrocinador. Ou a dupla dinâmica Bill e Steve, representadas por cabeções e roupas caracterizando seus representados – eu só reconheci o senhor Jobs pela camiseta preta. O senhor Gates foi por eliminação.
Mas as figuras genuínas, aquelas que nascem no convívio social de muita gente assim, são tantas que parece que o padrão visto nas ruas no cotidiano é que seria encarado como a exceção. Mas, claro, dá para destacar a dupla que se vestiu com as roupas dos irmãos Mario e Luigi e, durante a apresentação de uma banda de heavy-metal, que tocava só música de jogos, eles REPRESENTARAM os brothers encanadores. Achei divertidíssimo.
Ou um garoto, de 12, 13 anos, que eu encontrei em todos os ambientes, a todos os momentos do dia. Um dia, às 6h, outro, às 20h, no terceiro, de madrugada. Mas talvez tenha sido outro garoto.
Mas não só de figuras vive um evento desse tamanho. Há também aquelas manias que todo mundo fica pensando o motivo pelo qual ela existe e como começou e, claro, nunca se vai descobrir. É o tipo de maneira que só Durkheim e o seu fato social explicam. Como quando, de tempos em tempos, TODA a Campus Party grita: OOOOh. Para quê? Por quê? Perguntas são desnecessárias porque as respostas não existem.
Curiosamente, não vi muita gente com livros de papel, essa coisa tão offline. Além do flagra no rapaz lendo em um estande, vi um ou outro título, geralmente quadrinhos.
Ah, e também tinham as mesas, as palestras, as conversas, os casos, os debates, as desconferências, os jogos, os muitos jogos, de todos os tipos, o camping, as barracas, as festas até de madrugada, os banhos em contêineres, a solidariedade, a camaradagem, as amizades, os encontros e desencontros, tudo isso que faz um evento dessa natureza ficar inesquecível.
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Ptz… como eu queria estar nesse evento cara…
devia estar muito bom, quem sabe o ano que vem ou um dia desses.
Nossa um evento com essas propoções deve ter sido muito instigador , acho super importante que as diversidades se encontrem e se fundam , em um mesmo alvo , o compartilhar , o multiplicar , o somar conhecimentos e experiência .
Seria bom se houvesse em outras regiões , lendo esse resumo , imaginei a atmosfera do lugar e digo com sinceridade , seria ótimo em outras regiões.
Vou torcer pelos próximos eventos.