
O nome do livro: Conquistando o inimigo (Playing the Enemy, no original). O nome da adaptação do livro: Invictus, retirado do título de um poema do britânico Ernest Henley. Não que a mudança de nome seja lá uma novidade em adaptações cinematográficas. Pelo contrário: a prática é até bastante comum. Mas é que no caso específico do novo filme de Clint Eastwood a troca ajuda a entender as diferenças entre livro e filme – a visão particular do diretor.
Escrito em 1875, o poema conclui da seguinte maneira: “Não importa o quão estreito seja o portão e quão repleta de castigos seja a sentença, eu sou o dono do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”. Durante o filme, o espectador fica ciente de que este foi o poema que o então presidente da África do Sul pós-apartheid, Nelson Mandela, leu inúmeras vezes durante os 27 anos em que esteve preso. O poema é heróico e quase messiânico. O Mandela que Morgan Freeman interpreta também. Até demais. E esta é talvez a grande diferença entre o tom do livro, escrito pelo então chefe da sucursal sul-africana do jornal The Independent, John Carlin, e do filme de Eastwood. Enquanto o primeiro segue um ritmo mais jornalístico, o segundo opta por pegar o espectador pelo sentimento, pelo melodrama. A imagem de um líder negro que passou muito tempo de sua vida preso em um cubículo e depois se torna presidente de uma nação literalmente dividida pela questão racial já é por si só digna de sentimento.
Ainda mais se este mesmo líder conseguiu o feito de unir negros e brancos em torno do mesmo sentimento de nacionalismo e pertencimento a uma única nação. Mandela entendia que a única maneira de libertar seu povo era fazer com que os próprios brancos abolissem o sistema de segregação racial, que ainda vigorava na prática. Para isso, seria preciso conquistá-los. E foi isso que ele fez, com ética (sem sombra de dúvida), mas também com muita sedução, diplomacia e esperteza, características primordiais de um líder político.
Invictus carrega nas tintas messiânicas de Mandela em usar a Copa do Mundo de Rugby de 1995, símbolo da cultura branca, em um evento unificador do país. E quando se fala em num Mandela messiânico é impossível não se lembrar das inúmeras frases de efeito – como “precisamos ir além das nossas expectativas para criar uma nação” – que permeiam quase todas as cenas do personagem. Em vez de engrandecê-lo, esta abordagem quase sublime e até inocente acaba jogando contra a humanização do personagem.
Mas claro que isso não enfraquece o filme por completo. Contamos com o talento de Morgan Freeman, em mais uma bem sucedida parceria com Clint Eastwood, que faz com que o espectador enxergue realmente um Mandela na sua frente, e com o eficiente Matt Damon, que faz o capitão do time de rugby. Contamos, ainda, com a direção de Eastwood, que sabe tocar o espectador e fazer as lágrimas caírem (alguém se lembra de Menina de Ouro?). Mesmo que às vezes para isso ele tenha optado por ofuscar alguns ângulos bem interessantes. Invictus tem cara de que vai agradar à Academia.
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