Há quem pense que fazer samba de enredo é fácil: basta reunir umas rimas baratas, fazer uma pesquisa rasteira e usar e abusar de clichês. Se hoje essa fórmula simplista é cada vez mais repetida, a história do estilo musical que embala a passagem das escolas na avenida mostra que ele comporta muita criatividade e poesia. Emocionantes, são forte referência na memória musical de muita gente, como Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas, que acabam de lançar Samba de enredo – história e arte. Mussa é salgueirense e autor de romances que se propõem a fazer a ponte entre Brasil e o mundo árabe. Simas é imperiano, professor de história e, não menos importante, compositor de sambas de bloco.
Quem não se lembra da bela Aquarela brasileira, pintada a tintas fortes por Silas de Oliveira e “ressuscitada” em 2004 no desfile da Império Serrano? Ou de Kizomba, a festa da raça, da Vila Isabel em 1988? Mas e as pérolas que não fizeram tanto sucesso (injustamente), ou foram sendo esquecidas ao longo de mais de 70 anos de história? Mussa e Simas contam que as fontes são escassas e, apesar de guardarem gravações raras (o preciso número de 1.324) e consultarem acervos públicos importantes, como o do Museu da Imagem e do Som, sentiam falta de uma obra que contasse a história do samba enredo e reunisse referência de deles. Aí está o livro, com cronologia, divisão histórica e, claro trechos e mais trechos de sambas do Rio de Janeiro.
Segue a entrevista com Mussa. Recomenda-se ler (a conversa e o livro) ouvindo sambas de enredo que façam a sua cabeça. No final, o autor nos brinda com pequenas listinhas dos sambas mais poéticos, mais nacionalistas, mais apropriados para usar em sala de aula e, por que não, os maiores clichês.
A divisão em fases (anos 30 dedicados a malandros e ao nacionalismo, anos 40, a guerra e vitória, anos 50, o período clássico etc.) foi baseada em alguma referência anterior? Ou foi mesmo a partir do levantamento de vocês?
Não. É original. Talvez seja a primeira vez que foi proposta uma divisão da história do samba de enredo em períodos, mais ou menos como fazem os críticos em relação aos períodos literários, como romantismo, simbolismo etc.
Vocês falam no começo do livro da dificuldade de encontrar fontes sobre o assunto. O livro vem preencher esta lacuna, mas naturalmente não dá conta de reproduzir as letras inteiras, optando por transcrever os trechos mais importantes. Além do livro, que fontes de pesquisa vocês recomendam, sobretudo para quem quer ouvir esses sambas?
As letras não foram reproduzidas integralmente por problemas práticos, porque envolvia milhares de autorizações de autores e herdeiros de direitos. Principalmente para os períodos mais antigos, há muitos sambas de que hoje não se tem registro. Mas os sambas citados no livro são conhecidos integralmente e dispomos de gravações de quase todos eles. Alguns também são conhecidos de memória, porque assistimos a desfiles desde pequenos. O melhor centro para pesquisas é certamente o Museu da Imagem e do Som, além das fontes bibliográficas e das páginas especializadas, como Galeria do Samba e Academia do Samba.
Ao tratar dos sambas das últimas décadas, vocês mostram bem as mudanças e a perda de identidade das composições mais recentes. Além de serem mais rápidos e menos criativos, eles não fazem tanto sucesso quanto antes. O samba enredo passa pelo mesmo problema das marchinhas? Aparentemente, ambos mobilizam vários compositores mas não emplacam. O problema é de qualidade ou estaria ligado à decadência da indústria musical?
Provavelmente, uma junção dessas duas razões. A qualidade caiu, em função da aceleração do ritmo, dos enredos patrocinados (com temas completamente apoéticos), pela perda de importância do quesito samba de enredo no julgamento. Mas a crise da indústria fonográfica também é responsável por isso, porque as pessoas escutam sambas de enredo cada vez menos.
Para encerrar, e para dar a dimensão da variedade dos sambas de enredo em pequenas pílulas, as listinhas:
Os três sambas de enredo mais poéticos
Ressaltando que há inúmeros sambas de enredo poéticos, lembramos os seguintes:
Seca do nordeste (Tupi de Brás de Pina, 1961)
E o lavrador retira o seu chapéu
e olhando o firmamento
suas lágrimas se unem com as lágrimas do céu
Ao povo em forma de arte (Quilombo, 1978)
Por isso o Quilombo desfila
devolvendo em seu estandarte
a história de suas origens
ao povo em forma de arte
Pássaro guerreiro, Xingu (Tradição, 1985)
Pintado com tinta de guerra o índio despertou
Raoni cercou os limites da aldeia
bordunas e arcos e flechas e facões
de repente eram mais que canhões
Os três mais nacionalistas
Ressaltando que o nacionalismo que destacamos é aquele que coloca o povo como construtor da nação brasileira, elegemos os seguintes:
Heróis da liberdade (Império Serrano, 1969)
Ao longe, soldados e tambores
alunos e professores acompanhados de clarins
cantavam assim:
já raiou a liberdade, a liberdade já raiou
Onde o Brasil aprendeu a liberdade (Vila Isabel, 1972)
Aprendeu-se a liberdade
combatendo em Guararapes
entre flechas e tacapes
facas, fuzis e canhões
brasileiros irmanados
sem senhores, sem senzalas
História da liberdade no Brasil (Salgueiro, 1967)
Quem por acaso folhear a história do Brasil
verá um povo cheio de esperança
desde criança
lutando pra ser livre e varonil
Os três melhores para usar em sala de aula
Sublime pergaminho (Unidos de Lucas, 1968)
Uma chuva de flores cobriu o salão
e um negro jornalista
de joelhos beijou a sua mão
uma voz na varanda do paço ecoou
meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão
Os sertões (Em Cima da Hora, 1976)
Sertanejo é forte, supera a miséria sem fim
sertanejo, homem forte, dizia o poeta assim
O grande presidente (Mangueira, 1956)
No ano de 1883, no dia 19 de abril
nascia Getúlio Dorneles Vargas
que mais tarde teria o governo do nosso Brasil
Os três maiores clichês de samba-enredo
Rimar palavras com “Sapucaí” no refrão final
A idéia atual de que a letra do samba de enredo tem que citar o nome da escola, mesmo fugindo do enredo, para inflamar a arquibancada
Expressões como “vamos sacudir”, “vamos arrepiar”, que confundem desfile de escola de samba com baile à fantasia ou com bloco de embalo.
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Como de costume, os posts do Livreiro não terminam no ponto final. Os comentários estão abertos para você contar qual é seu samba de enredo predileto ou até mapear mais clichês da avenida.
Leia também:
» Dia do Samba: um passo a passo para entrar no ritmo
» Carnaval 2010: o Salgueiro e suas histórias sem fim
Este post e seus comentários podem conter opiniões que não refletem o ponto de vista do Livreiro.







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Já tinha questionado algumas pessoas ligadas ao mundo do samba sobre o motivo dos sambas mais atuais não pegarem tanto quanto aqueles mais antigos. Alguns dos pontos marcados no texto já tinha sido respondidos, mas ninguém tinha tocado na questão dos sambas patrocinados. Não sei se é bem assim. Se fosse, publicitários estariam sempre perdidos. É possível criar algo realmente bom mesmo estando no cercadinho do tema.
Quanto a citar o nome da escola para inflamar a arquibancada, sendo bem feito, não vejo problema algum. É um clichê muito bem-vindo. Um grande exemplo é “Peguei um Ita no Norte”, samba campeão do Salgueiro em 1993. Além lindo e marcante (o samba mais novo que não sai da minha memória – eu tinha quatro anos de idade na época e desde que ouvi nunca mais esqueci), sabe usar o nome da escola para levantar a arquibancada como poucos: “Explode coração / Na maior felicidade / É lindo meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo esta cidade (Explode!)”. Não sou salgueirense, mas este samba é seguramente o melhor da minha geração.
No livro, eles começam o capítulo “Encruzilhada”, que resume os novos tempos do samba, falando justamente deste samba inesquecível do Salgueiro. Segundo eles, o samba foi contestado por membros da escola, mas gerou um mega impacto na avenida e hoje é cantado no Maracanã, bom termômetro de sucesso.
Se é para falar do primeiro samba que marcou a vida (e como sou um cadinho mais velha que o Romullo), cito o “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, da Beija-Flor em 1989. Foi muito impactante aquela “sujeira” toda na avenida. Para mim é a prova de que é um caminho de mão dupla, um desfile impactante ajuda a fazer o samba ficar famoso, e um bom samba de enredo faz diferença fundamental para um desfile dar certo. Nunca esqueci a letra deste samba.
Claro que não lembro de ver “Ratos e urubus, larguem minha fantasia” da Beija-Flor na avenida. Eu ainda não havia completa nem 1 ano no carnaval de 1989. Mas a verdade é que sempre ouvi falar muito deste desfile da Beija-Flor de Joãozinho Trinta, um gênio (membro desgarrado da parte nordestina da minha família) que enfrentou a censura da igreja e revolucionou a arte do carnaval. Já vi muitos takes na TV deste desfile, uma coisa realmente emocionante e cheia de significados. Neste caso, não lembro da letra do samba, mas sempre que falo de carnaval imagens este desfile vem a minha cabeça. “Ratos e urubus…”, além da amizade entre a Beija-Flor e a Acadêmicos de Santa Cruz, contribuiu muito para hoje eu torcer também para a azul e branco de Nilópolis, mesmo sem nunca ter visitado a cidade e conhecer qualquer cidadão que vive por lá.
Oi Helena, tudo bem? O Felipe me mandou o link e gostei muito da reportagem!
O samba que me arrebatou pela primeira vez foi o “Contos de Areia”, da Portela em 1984 – ano de ótima safra (cito ainda “Yes! Nós temos Braguinha”, da Mangueira e “Skindô, Skindô”, do Salgueiro).
Ultimamente ando escutando muito samba enredo e descobri um da Mocidade de 71, “Rapsódias de Saudade”, que considero o mais bonito, verdadeiro poema musicado!
“Ratos e urubus” marcou pelo enredo, com um samba bom. Ah, e teve o “Kizomba”, considerado um dos melhores desfiles da história das escolas, da Vila, em 88. ´
É um tema fascinante e pelo qual sou cada vez mais apaixonado!
Parabéns pelo texto e a divulgação do livro! Beijos, Leo.
Eu , minha família e meu namorado somos fãs incondicionais de sambas-enredos. Muitos marcaram minha vida, principalmente os dos 80, mas têm alguns mais recentes que eu gosto bastante como por exemplo os da Imperatriz de 2005 sobre Hans Christian Andersen e o de 2006 sobre Garibaldi. Gosto também do samba-enredo da Vila Isabel de 2005. Tenho ouvido os desse ano, mas ainda não me empolguei com nenhum, mesmo o do Salgueiro (sou salgueirense) ainda não consegui gravá-lo só o refrão: ‘Uma história de amor,sem ponto final, academia do samba é salgueiro, no livro do meu Carnaval”.
Nossa, “Contos de Areia” da Portela é lindo demais. Um samba emocionante. Apesar de meus sambas preferidos serem anteriores ao meu nascimento, acompanho carnaval pela paixão do meu pai, que toca surdo em blocos carnavalescos, rodas de samba e já tocou também em bateria de escola de samba.
De fato, difícil ver hoje em dia um samba-enredo com a qualidade de letra de antigos sambas, que por isso mesmo se tornaram antológicos. Tem um da Mangueria, composição de Nelson Sargento, “Estação das Flores”, que é um canto lindo sobre as estações do ano.
“Liberdade, Liberdade” também gosto muito. Mas o meu preferido ainda é “Aquarela Brasileira”, do Império Serrano. Mas não nego a alegria contagiante de É hoje, da União da Ilha. Enfim, samba-enredo bom tem letra que marca, além do ritmo da bateria. Estou muito curiosa para ler o livro!
Bacanas os comentários! Também adoro o “Contos de areia”, mas confesso que só conheci mesmo quando ele foi repetido no desfile de 2004 (se não me engano pela Tradição, cria da Portela).
Outro que nunca esqueci é “Um mouro no quilombo”, da Paraíso do Tuiuti, escola que naquele ano subiu para o grupo especial e caprichou na parte musical. Cheguei a ir no ensaio só porque achei o samba surpreendente, com uma linha melódica muito doida, que se destacava muito do resto.
O engraçado é que lembrei disso agora e fui pesquisar na internet para fazer este comentário. E o que encontro? Este post no blog do Luiz Antonio Simas, que dá detalhes sobre o samba (comemora, por exemplo, o fato de os compositores não rimarem Tuiuti com Sapucaí) e, melhor de tudo, coloca um MP3 para a gente ouvir a pérola. Confiram lá! http://hisbrasileiras.blogspot.com/2009/11/tuiuti-2001-fibra-de-palmares.html
Sambistas de Plantão! Depois de ler esse post, fui procurar alguns dos sambas citados e, para minha supresa e deleite, dei com um banco de daos enorme de sambas enredo para baixar gratuitamente. Aqui: http://www.apoteose.com/ tem de todas as escolas do Rio de Janeiro e muitas das gravações são originais, das décadas de 1960, 70 e 80. Arrepio ao escutar!
Preciosidades do samba!
Espero q curtam a dica!
Valeu Brunella!!!!!
Meus pais têm todos os discos de samba das décadas passadas em LP, agora poderei baixar os sambas para matarmos as sa as saudades dessas preciosidades. Muito obrigada pela dica.
Abraços
Mapersa
Excelente dica, Brunella! Quando escrevi o texto fiquei me perguntando se haveria algum site que reunisse tudo, mas na correria não achei. A melhor coisa que pode acontecer é ver os comentários complementando o texto deste jeito! Abraço embalado nos belos sambas!
Nossa, assim que lia a sua matéria, Helena fui correndo procurar. Eu amo samba. Especialmente os antigos. Meu pai me ensinou todos quando me levava para rodas de samba qdo eu era pequena ainda. Mas nunca tinha achado tantos, ou todos! Quando encontri esse site, vibrei! E claro q pensei no meu pai na hora. Vou gravar um CD e dar pra ele de presente!
*-*
Vamos cantar juntos muitos sambas… Inclusive o dele, “Só dá Lalá”. Hahahaha. O nome do meu pai é Laerte…
E viva o samba!
eu adoro sanba em redo ..
mas quando vcs fazer outro
site com esta vé se vcs não escreven muito tá…