Rio: qual a sua cara?

Postado por Julio Honaiser em 8 de janeiro, às 20:13 em Notícias  |  Comentários (6)
O Rio sexual de Mario Testino

O Rio sexual de Mario Testino

“Quando eu tinha 14 anos, de férias, indo de casa para a praia vendo todo mundo andando naquelas roupas de banho pequenininhas, vi como as meninas e os meninos eram tão sensuais, sem preocupações e selvagens”.

Este é o Rio do fotógrafo peruano Mario Testino, um dos papas da fotografia de moda, queridinho de Gisele Bündchen e definitivamente um formador de opinião. Suas fotos – que podem ser vistas no recente Mario de Janeiro Testino – ressaltam uma cidade que seduz: de corpos bronzeados, suados, trabalhados, pouca roupa, olhos caçadores e lábios que são um convite à tentação. Em suma, um Rio sexualmente disponível, de moral deliciosamente frouxa. Um lugar do hedonismo. Curiosamente (ou não) também o Rio de outros fotógrafos como a mistura de anônimos e famosos de Terry Richardson, rei da pornografia chic, autor de Rio: cidade maravilhosa e do pai da fotografia de moda Bruce Weber, que já em 1986 lançou o livro O Rio de Janeiro (raridade fora de circulação que pode se apreciada no video no final deste post). Ambos seguem à risca a cartilha: sexo, sexo e sexo.

Rio cool de Oskar: sensualidade velada

Rio cool de Oskar: sensualidade velada

Contrário à imagem de um Rio sexualizado, uma personalidade da moda brasileira aproveita o Fashion Rio, que acontece até o dia 13, para dividir com os frequentadores da semana de moda carioca uma visão mais particular sobre os moradores da cidade. Uma visão – o tal “Ipanema way of life” – que, inclusive, serviu como base fundamental para a consolidação da marca Osklen como uma das mais bem sucedidas nacional e internacionalmente. Oskar Metsavaht, nome por trás da grife, expõe durante o evento dez imagens em backlight no Píer 3 que retratam sua percepção do Rio e dos cariocas. Aí que a história muda. O que se vê são imagens que prezam o minimalismo, as sutilezas, uma naturalidade e um arrojo que não passam pela sexualidade latente. Pelo contrário. O carioca de Oskar tem uma postura mais contida, poética até, e uma sexualidade que existe, só que de forma mais velada. Um Rio definitivamente cool, elitista aos olhos de muitos, como admite o próprio Oskar.

Os corpos sarados de Alair Gomes

Os sarados de Alair Gomes

A explicação estava óbvia: estamos diante de um embate entre a visão estrangeira e a visão nativa da cidade. O que o brasileiro enxerga não é o que um gringo observa. Questão resolvida? Nem tanto. Porque me lembrei imediatamente do fotógrafo brasileiro Alair Gomes que registrou os corpos masculinos das praias cariocas nos anos 70 e 80, em cliques de corpos em sintonia com o conceito de beleza masculina que sugere vigor, energia e força.  Se até um brasileiro enxerga o Rio como este epicentro da libido nacional, podemos estar diante de uma imagem  institucionalizada, talvez política e socialmente. Convenhamos que dez em cada dez turistas chegam aqui fascinados por toda essa liberalidade que encontram nos livros e filmes sobre o Rio. Até o filme institucional da prefeitura da cidade criado para convencer o Comitê Olímpico na escolha da cidade como sede das Olimpíadas usa e abusa dessas ideias que, me parecem, estão enraizadas no nosso imaginário.

Top Isabelli "carioca" by Terry Richardson

Isabelli "carioca" by Terry

Curiosos que somos, e aproveitando nossa presença no Fashion Rio, síntese da moda fresca e vaporosa, O Livreiro resolveu perguntar: afinal de contas: qual é a cara do Rio? Existe realmente uma imagem que consegue decodificar quem somos e como vivemos?

Para a consultora de moda Regina Martelli, estamos diante de um embate entre o artístico e o curioso, entre a imagem sofisticada e a curiosidade. “Não dá pra negar que o olhar de fora é quente, ou melhor, busca esse calor a todo custo. Eu acho que o carioca junta um pouco dessas duas imagens: ele tem a elegância, mas também não dispensa a emoção”, teoriza.

Fernanda Barbosa by Terry Richardson

Fernanda by Terry

Já para o jornalista de moda masculina Lula Rodrigues, dono do blog homônimo que é referência no assunto, a diferença básica nessas imagens está na origem do olhar. “Não dá pra um brasileiro clicar Paris da mesma forma que um francês, da mesma forma que Terry Richardson e Mario Testino serão sempre gringos falando da gente. Nada contra, eles têm um olhar globalizado, mas é um ponto de vista de fora. O Oskar já é a visão de dentro, com mais sensibilidade. Ele vê o Rio da maneira que eu vejo: sensível, mas com paixão, graça, dor e sabor”, filosofa.

O stylist e jornalista Sylvain Justum, do blog Hypercool, é categórico: a visão de fora  da cidade está quase sempre ligada a um certo exotismo. “Esses fotógrafos querem captar o pitoresco, aquela ideia que eles já têm do Rio, da “capital do sexo”. Claro que o carioca é, sim, bastante sensual, mas de uma maneira diferente”. 

Mais que um olhar, um registro do estilo de vida. Pelo menos é assim que a jornalista de moda Gloria Kalil, editora do Chic, enxerga a visão de Oskar do carioca. “Estamos falando de qualquer maneira de símbolos, que são fortíssimos. Acho que ele vê o Rio de uma forma muito sensível, sem dúvida. Mas os símbolos que ligam a cidade à beleza e a uma sensualidade despojada são muito fortes, compartilhados até pelos brasileiros”, admite Kalil.

Bookmark and Share

Leia também:

» Quiz: qual look de celebridade mais combina com você?
» Ronaldo Fraga e as roupas que falam

Este post e seus comentários podem conter opiniões que não refletem o ponto de vista do Livreiro.

6 comentários para “Rio: qual a sua cara?”

  1. Ronaldo Pelli disse:

    O Rio de Janeiro só tem a ganhar com a “exportação” do seu jeito de viver. Aliás, já ganhou. Em São Paulo e em Curitiba, pelo menos, há típicos “botecos cariocas” em que as pessoas podem beber um chope e comer um petisco despreocupado.

    Esse jeito de não-se-levar-a-sério, além de ser mais saudável, faz dinheiro. Vide a Osklen, supracitada. E arrisco a dizer também o caso das Havaianas, que mostra como o despojamento é importante.

    Prefiro morar numa cidade associada à praia que a tiros.

  2. O Ronaldo mandou bem no comentário e Júlio da matéria. A única consideração que ouso fazer é que na verdade, o rei e o mestre do “porn chic” é Helmut Newton, bem como é pai da fotografia de moda. Alguém discorda?

    Outra coisa: fiquei sabendo que o Rio como sede das Olimpíadas foi homenageado no Fashion Rio neste sexta. Será que vale incluir esta informação no texto? Abraços!

  3. Sem dúvida, Romullo, Helmut Newton é pioneiro nessa abordagem estetizada do erotismo. E sem dúvida também merece o título de “rei”. Talvez tenha sido mesmo um exagero meu classificar o Terry como tal. Mas vamos combinar que o tratamento que o Helmut deu ao erotismo – e aí falo de cores, ângulos, informação de moda – apesar de inegavelmente polêmico, me parece mais sofisticado e elitizado que as fotografias do terry Richardson, mais cruas e, ao meu olhar, mais pornográficas. Então vamos deixar assim: o falecido Newton é, de fato, o REI pelo pioneirismo e Richardson o príncipe. Que tal?

  4. “… as fotografias do Terry Richardson, mais cruas e, ao meu olhar, mais pornográficas.” Ao meu olhar, acrescento nesta sua frase até um “mais cariocas”. Combinado então: Terry Richardson, príncipe. Se bem que até eu tiro fotos como aquelas dele. “Só me falta-me a fama”.

  5. Adriano disse:

    Embora seja paulista, eu amo o Rio de Janeiro. Acho que a Cidade Maravilhosa representa muito bem o Brasil lá fora. Quando vou ao exterior e digo que sou brasileiro, as pessoas já me perguntam (com um certo brilho no olhar) : “riou dei djanérou?” rsrsrs
    Acho que os gringos têm mesmo mais uma percepção sexual do que criminosa do Rio.

  6. marcela disse:

    nao via nada de mais nessas fotos, o rio é muioto mais

Deixe um comentário    ( Faça login no Livreiro)