Quando começamos a pensar no que fazer com o lançamento de Alice no País das Maravilhas numa cuidada edição da Cosac Naify, saímos à cata de referências: diversas adaptações cinematográficas (sai uma assinada por Tim Burton ano que vem), ruminações literárias e também uma contextualização do que fizeram antes o historiador Nicolau Sevcenko, que traduziu, e o artista plástico Luiz Zerbini, que criou as ilustrações. Apenas então me dei conta de que nunca tinha lido a obra escrita por Lewis Carroll e de que mal me lembrava de seus temas principais. Tudo que tinha eram os ecos da obra, que são muitos, e que têm tons que vão do Disney adocicado à acidez Gaimanesca. Uma soma de referências tão incongruente a ponto de quase não existir como força. Por que não fazer uma resenha, então, absolutamente inocente e desprotegida, sem me escudar nas teorias já escritas e facilmente pesquisáveis? Ler Alice com olhos virgens?
É isso que vou tentar fazer a seguir.
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O que mais surpreende de início é a forma hábil em que Carroll mistura o fantástico e o absolutamente prosaico em Alice. Muito cedo, Carroll estabelece o clima de duplicidade: as coisas são incomuns embora tenham uma aparência absolutamente corriqueira. Não há o mundo distante dos contos de fadas: não há princesas, bruxas e dragões, mas coelhos, chapeleiros e gatos. Há uma rainha, sim – mas há também todo um baralho, é dali que ela vem. Dá desde o início a impressão de uma visão alterada do real. O fantástico deriva do real, constrói-se a partir dele. Carroll mantém essa conexão com o real mesmo nos momentos mais absurdos, como quando Alice cai e cai e cai pelo buraco em direção ao País das Maravilhas, uma queda irreal, em que a personagem não sente medo, não antecipa o choque contra o chão. Em meio a essa situação surreal, Alice pega um pote de geleia de laranja em suas mãos, para deixá-lo mais adiante em uma escrivaninha.
O tom me recorda um pouco o de contos chineses e japoneses de terror antigos. Um sujeito está lavando as roupas. Aparece um fantasma verde que, ele sabe, drenará seu sangue. O autor não facilita a vida do leitor, não apresenta as regras do universo estranho que descreve. Elas são impostas: nessa história é assim e ponto. O efeito é matador: a impressão para o leitor é que, se você não comprar essa ideia tresloucada desse real transformado, a história fugirá por aí para se entregar a outros olhos. Não resta muito ao leitor minimamente curioso além de se entregar e ver onde dá.

A falta de surpresa de Alice frente ao absurdo (ao maravilhoso) torna difícil uma identificação imediata. De início, ela não parece chocada. Com nada. Choca-se com detalhes tolos: com o fato de que um coelho que fala consulte as horas em um relógio. Ela tampouco hesita: se há uma garrafa que potencialmente guarda uma poção que vai mudar seu tamanho, ela a toma porque “alguma coisa interessante na certa há de acontecer”. Carroll não constrói Alice de forma dramática realista. Torna difícil acompanhá-la, no sentido de que ela não é muito humana, não tem angústias humanas, não chega a realmente ansear voltar para casa. Mas faria sentido escrevê-la de forma realista, matizada em tons humanos? Talvez, se o objetivo fosse que o leitor se espelhasse em Alice e partisse junto com ela para entender esse mundo louco onde foi parar. Mas essa não parece ser a missão de Carroll. Parece que ele na verdade quer que entendamos Alice.
Há barrigas no livro. Há cenas absolutamente inconsequentes e, ademais, desinteressantes, como a da Quadrilha da lagosta, na companhia do Grifo e da Falsa Tartaruga. O livro prescindiria delas facilmente. A menos que a ideia seja mostrar que é possível se entediar no País das Maravilhas, que é o que acontece com a própria Alice – e com pelo menos este leitor, nessa parte específica.
Há também uma postura desafiadora da personagem com aquilo que poderia ser construído como alegorias de instituições: o governo, a Igreja, os adultos. Alice é irreverente e desafiadora diante de personagens aparentemente ameacadoras, como a rainha. É como se ela atualizasse a fábula das roupas do rei, mas com mais verve. Mas é curiosa a opção de Carroll de não dotar ninguém ali, sequer a rainha, de real poder. Bastante cedo nos damos conta de que sua ameaça de cortar cabeças é apenas isso, uma ameaça. Sem o que temer, é fácil desafiar.
Para mim, uma chave de interpretação mais fértil – até porque menos rocambolesca – recorre às coisas próximas de uma menina como Alice. As cartas de baralho estão próximas dela, coelhos e gatos também, a rainha muito bem pode ser um eco de sua própria mãe. Resta uma das molas mestras do livro, crescer e diminuir. Mas o que é mais próximo de uma criança dessa idade que se sentir adulta o suficiente para certas coisas e uma simples criança, para outras?
Há certas pistas de que estamos falando o tempo todo a respeito de tempo e maturidade aqui: é um coelho constantemente atrasado e consultando seu relógio quem atrai Alice para o buraco que a leva ao País das Maravilhas. E ela finalmente consegue se relacionar com o mundo “louco” em que foi parar quando aprende a controlar seu tamanho usando pedaços do cogumelo apresentado pela Lagarta Azul.
É algo que eu gostaria de ter na adolescência. Ou hoje, aos 33 anos.
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Veja algumas das ilustrações de Luiz Zerbini para o livro.
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Acho que o melhor de Alice é por ser um livro que não cai no clichê e não é tão infantil assim. Livros para crianças não costumam ter lagartas fumando hookah. Tenho um pouco de receio ao interpretar o que os autores “quiseram dizer”, pois muitas vezes não passa de invenção dos leitores, mas talvez a mensagem seja “Encarem o absurdo como algo fascinante, e não como algo simplesmente absurdo”. Há coisas que parecem bobas, mas na verdade só são obviedades que omitimos. Acho um bom livro, recomendo e não vejo a hora de assistir a versão de Tim Burton! Parabéns pelo post, Douglas.
Gosto muito de Alice no país das maravilhas, mas prefiro Alice no País do Espelho. A sucessão de personagens loucos e situações inusitadas é ainda maior e os malabarismos linguísticos e lógicos são fascinantes. Esse livro é inclusive também o preferido pelo Alberto Manguel, que considero o melhor leitor da atualidade, à frente de caras como Umberto Eco e Claudio Magris.
Tem uma resenha do filme A menina no País das Maravilhas (Phoebe in Wonderland) no blogue Phallos que traça um paralelo entre o filme e os dois livros.
Eu amo a historia de Alice. Acredito (pelo menos é minha visão da historia) que o que se queira mostrar não é realmente a loucura em si, mas a loucura que existe dentro das coisas mais comuns que conhecemos, a loucura que cabe dentro de todos nós, que não sabemos reconhecê-la. Alice, com sua enorme imaginação e mente expandida, vê essa outra “realidade” e nos mostra como seguir viagem em um mundo desconhecido, mas, que no fundo, está dentro de nós mesmos, e por isso não devemos temer.
Parabéns pelo post, Douglas, está muito bom.
Já citado em seu texto, a transformação do Real no Fantástico é um dos fatores mais interessantes do livro e, aliás, de toda a obra de Carroll.
É possível verificar esse aspecto até mesmo nos poemas do autor (ler “Panthasmagoria” ou “The hunting of the Snark”). O tema central não é o que é fantástico em sua essência, mas o que sofreu a passagem do estado real para o surreal, e Alice é o espelho dessa característica da escrita de Carroll.
Um exemplo:
Na continuação da história de Alice em “Através do espelho”, a personagem lê um poema sobre uma criatura fantástica chamada Jaberwocky. Porém, Alice fica mais interessada com os primeiros versos do poema, versos os quais continham palavras desconhecidas e estranhas. Ela praticamente despreza a criatura em si, o Jaberwocky (que, aliás, é algo realmente estranho, como podemos ver pela ilustração de Sir John Tenniel) e dá maior valor às simples palavras que ela não compreendia.
Alice independente de que forma seja parece fazer alusão ao mundo astral em meu ver…