Um universo chamado fanfiction

Postado por O Livreiro em 14 de dezembro, às 10:57 em Notícias  |  Comentários (3)
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O anime Ouran High School Host Club: ponto de partida

Para quem está acostumado a lidar com o mainstream da produção de histórias – livros, roteiros, filmes, peças – as fanfics têm um cheiro estranho. Partem de universos já criados, geralmente por livros estrangeiros que vendem como pão quente, são escritos por gente jovem e raramente são publicados em algum lugar além da internet. Mas basta apenas mergulhar (deixando os preconceitos na borda) para descobrir um mundo de gente que lê muito, escreve muito e pensa  desde cedo em histórias, o que funciona ou não, qual a melhor maneira de contar. Pedimos então a uma legítima fanfiqueira, Brunella França, moderadora da comunidade sobre o tema em O Livreiro, para entrevistar uma emérita fanfiqueira, Lhaisa Andria, que acaba de lançar um estudo sobre o assunto. Pronto para a viagem?

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Por Brunella França

Escrever histórias com personagens, cenários e acontecimentos baseados em outras obras. Essa é a proposta das fanfics ou simplesmente fics, abreviação da palavra inglesa fanfiction (ficção criada por fãs). Esse hobby não é novo, mas a prática que se tornou muito comum entre jovens se popularizou com a chegada da internet, levando fãs de todo o mundo, imersos nos universos ficcionais de sua preferência, a produzirem novos conteúdos a partir de um livro, uma história em quadrinhos, um anime ou mangá, um filme ou um seriado televisivo.

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Lhaisa: paixão pelas fics motivou TCC e livro

A tecnologia para produzir comunicação está cada vez mais nas mãos do grande público. Num computador pessoal é possível editar vídeos, fotos, textos e com a internet, a baixos custos, esse conteúdo pode ser facilmente publicado. É nesse contexto que prolifera o fenômeno da fanfiction. No Brasil, o site com maior número de publicações é o Nyah. Para entender um pouco mais sobre esse universo, conversamos com Lhaisa Andria, escritora de fics há mais de 10 anos e autora do livro Fanfics, aprendendo a escrever escrevendo.

Lhaisa formou um grupo de escritoras no ensino médio e as histórias baseadas no universo ficcional de Harry Potter e afins são publicadas em um blog. Na universidade, realizou um trabalho de pesquisa sobre assunto, no qual seu objetivo era apresentar o universo das fanfics e mostrar exemplos de como ele poderia ser um meio prático e funcional de se ensinar a escrever.

Quando você descobriu as fanfictions?

Em 2000, com 12 para 13 anos. Já tinha visto a palavra em alguns sites, mas nunca me aprofundei no assunto. Foi depois de ler os primeiros volumes da série Harry Potter e de ir atrás de mais informações na internet que me deparei com o primeiro site que postava fanfics do bruxinho no Brasil, o Potteriana. Foi onde li a minha primeira fic e fiquei fascinada com o fato de existirem pessoas que escreviam aventuras extra-livro. Foi um pulo no precipício, logo eu estava escrevendo também.

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Brunella comanda a comunidade de fanfic e faz a entrevista

A princípio achei que uma fanfic criada com base nos livros não seria legal, não passaria de uma imitação. Era uma visão bem preconceituosa, mas infelizmente é o que a maioria das pessoas pensam ao se depararem com esse tipo de texto. Entretanto, logo nos primeiros parágrafos da primeira fic que li me interessei e não pude mais parar.

Por que você decidiu escrever?

Sempre gostei de ouvir e acompanhar histórias, tanto em livros, filmes, desenhos, novelas… Faz parte da minha natureza me prender em histórias, é inevitável. Entretanto nunca tinha pensado seriamente em ser escritora ou trabalhar com isso. Com as fanfics descobri um meio de extravasar a minha criatividade e descobri que as pessoas gostavam do que eu escrevia. A partir daí, fui gradualmente desenvolvendo a minha escrita, até chegar onde estou hoje. Se não fosse pelas fics entrarem no meu mundo quando tinha meus 13 anos, provavelmente hoje eu seria veterinária.

Qual a motivação para continuar?

As possibilidades, a experiência e, é claro, os leitores. Fanfics nos dão oportunidade e espaço para desenvolvermos ideias e inovar a forma de criar textos. O que aprendi nesses 10 anos de fanfics está muito além do que meus professores puderam me passar durante os anos de escola e mesmo na faculdade. Vejo o universo “fanfiqueiro” como se fosse um grande centro de estudos, onde temos a disposição aqueles que consideramos mestres dentro da literatura.

O que você aprendeu com a prática?

A escrever um bom livro. É basicamente isso que as fanfics podem nos ensinar. Porém, pessoalmente, as fanfics me ajudaram a moldar meu pensamento na hora de escrever, a ser crítica, a analisar o que escrevo. Não posso dizer, por exemplo, que parei de escrever palavras erradas (isso é inevitável, já que a história é sempre mais importante. Revisão vem depois, e para ajudar existem os betas – leitores betas são pessoas que acompanham o desenvolvimento da história e auxiliam na revisão ortográfica -, mas não deixo passar furos nos acontecimentos: se uma porta foi fechada quando o personagem entra, ele não pode simplesmente sair como se não tivesse nenhum obstáculo; se está no inverno, não tem como sair de casa sem um agasalho. Pode parecer uma colocação boba, mas os leitores reparam, e quanto mais furos de narração, mais impressões negativas. Um texto ‘redondo’, com acontecimentos que começam e terminam, resultam em impressões positivas.

Conte um pouco sobre o seu processo de criação.

O mais básico de tudo é a ideia. Aquela faísca que vem de repente e junto com ela uma enxurrada de outras ideias. Isso sempre acontece. Pode ser com um simples pensamento, um filme que vi, uma frase no meio de uma música, um comentário de um amigo. Depois da ideia inicial, sempre procuro anotar tudo o que penso em um caderninho, para não esquecer. Quando toda a base já está definida (os personagens, quem são eles, o que eles fazem, qual vai ser o seu papel na história, uma sinopse de como vão se desenrolar os acontecimentos), começo e escrever no mesmo caderno. Escrevo só o básico, sem descrever: mais os diálogos e o que acontece na cena. Depois, na hora de digitar é que desenvolvo, conto detalhes, penso em expressões, em gestos, em relatar as emoções. Nunca releio o que escrevi no mesmo dia, precisa ser pelo menos um dia depois, quando já não é o mesmo ‘eu’ de quando escrevi, e posso analisar o texto como uma leitora e revisora.

A parte mais complicada, no meu caso, são os nomes. No caso das fics de Harry Potter fica até mais fácil porque podemos pegar um nome inglês que soe legal ou combine com o personagem. Mas quando escrevo fora do universo das fics fica complicado, porque as pessoas têm tendência de ligar nomes às pessoas. O que mais gosto de fazer são as adaptações. Tirando o fato de fanfics geralmente já serem um tipo de adaptação (baseadas em uma obra que já existe), gosto de misturar o universo mágico da J.K. Rowling com outras histórias. Já fiz isso com Senhor dos anéis, criando uma série de fics de comédia que começam com O um anel perdido; com um seriado japonês famoso, que resultou na série Entre doces e dragões (que uso de exemplo nas minhas oficinas de fanfics); e agora estou fazendo experiências com um anime chamado Ouran High School Host Club, uma comédia que usa vários elementos visuais, e é muito divertido adaptar isso para o texto. Adaptação é um desafio. Mais do que pegar um padrão de acontecimentos prontos de um livro de sucesso, você precisa pensar muito bem em como ele vai ficar com uma nova roupagem, sem entrar em conflito com nenhum dos universos ficcionais usados, e ainda dar uma lógica para tudo.

O que você acha que as fanfics acrescentam para quem lê e para quem escreve?

Interação. Por mais que escritor de um livro more na mesma cidade que você, ele ainda parece ser uma pessoa distante. Nas fanfics os leitores não ficam receosos em mandar um comentário, em manter contato com seus fãs-escritores favoritos, de sugerir, de perguntar. Não importa onde você esteja, pode falar com ele de onde você está. Além do mais, geralmente as fics são lançadas por capítulos, o que gera uma certa expectativa e torcida entre os leitores pelos próximos acontecimentos. Esse contato direto faz toda a diferença, e é o principal elemento de incentivo das fanfics.

Em sua opinião, qual a contribuição das fanfictions para a literatura?

Acho que as fanfics podem atuar como uma ‘peneira’ e uma ‘vitrine’. Se alguém pensa em ser um escritor, pode testar seu talento através das fics. Se não der certo, pelo menos tentou e pode continuar sua vida em busca de outra ocupação. Se algum editor está procurando por uma revelação, um mago com a pena e a caneta, pode encontrar nas fanfics.

Você acredita que esse novo jeito de escrever pode ser uma nova metodologia de criação literária?

Eu não diria uma nova metodologia, mas uma nova forma de ‘pensar o escrever’. Partindo do interesse de quem escreve, auxiliando a aprimorar e mostrando através das suas próprias palavras onde deve melhorar. Não forçando a escrever em cima de receitas prontas e mostrando que o principal é você ser entendido, passar uma ideia. Se entre a 5ª e 8ª séries estimulássemos textos baseado nos interesses dos alunos usando essa tática, poderíamos obter melhores resultados nas séries seguintes, quando as redações se voltam para o vestibular. Não iríamos ter que nos preocupar com o ‘fazer o aluno escrever’, mas sim partir para ‘dê a sua opinião sobre’. Em toda a minha experiência como aluna e professora, percebi que existe muita teimosia dos dois lados quando o assunto é produzir texto: professores não querendo inovar e alunos não se dedicando a aprender porque é ‘chato’. Se nos dispusermos a aplicar em sala de aula essa interação e possibilidades que as fanfics oferecem, não só teremos alunos mais participativos como eles serão mais críticos e terão uma base sólida em seus textos: uma base que foi fundamentada por eles mesmos com a ajuda do professor. A partir do momento em que eles passam a ver seus textos não como obrigações, mas como produções suas, que podem ser expostas e ter leitores, é a primeira etapa para se tornar um escritor consciente e seguir a tendência do evoluir.

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3 comentários para “Um universo chamado fanfiction”

  1. Adorei a matéria!
    Particularmente, acabei de iniciar no mundo das fics como leitora e estou gostando. Também curti muito o bate-papo dela com o João Paulo Cuenca e com o Flávio Moreira da Costa na Literópolis, foi muito legal (principalmente a oficina de fics que ela deu). Parabéns!

  2. Eneida disse:

    Eu já tinha escutado falar das fics, mas nunca tinha entrado em contato. Hoje mesmo eu estava conversando sobre eu ter mania de criar variações, seja de fatos ocorridos ou histórias lidas. Muuuuita coincidência ler esse texto logo hoje! Já vou entrar nos sites pra ler as fics. Quem sabe um dia eu me animo a criar uma também.

  3. Mary disse:

    L!! Minha ÍDOLA!! Eu amo muito as fics que ela escreve! Eu lembro as vezes e caio na risada, seja aonde for. Já recebi olhares tortos de tanta gente por rir sozinha… Enfim, eu escrevo fanfics também, me baseando nos textos da Lhaisa, no humor, etc… E até que está dando certo! Kissus~Kisuuus ;*

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