Uma estupidez. Uma truculência. Um absurdo. Um montaréu de dinheiro. Um objeto do desejo. Uma obra de arte. Fetichismo, puro fetichismo. Todas essas expressões são aptas para descrever o livro que acabou de ser lançado pela Taschen e também seu objeto de estudo: Napoleão, filme nunca encenado pelo grande Stankey Kubrick, que consumiu dinheiro e anos de sua vida em uma pesquisa obsessiva que acabou dando em nada.
Tijolo é pouco: o tomo pesa mais de dez quilos e custa a bagatela de US$ 700. É coisa para fã fetichista, que tem com Kubrick mais ou menos a relação que ele tinha com Napoleão. Na crista da onda graças ao sucesso de Lolita e Doutor Fantástico, às vésperas de lançar 2001, Kubrick se lançou ao antigo sonho de fazer o filme sobre seu ídolo, contando tudo, desde suas campanhas vitoriosas até o desastre na Rússia, passando pela paixão eviscerante vivida por Josephine, que o francês teria conhecido – ecos de De olhos bem fechados? – em uma orgia.
A ambição e o olho para detalhe característicos do cineasta entraram em modo faraônico quando ele se lançou à pesquisa do roteiro, à busca de locações em meio mundo, à procura do veludo no tom correto para cada uniforme de batalha e também na contratação dos atores certos para cada papel. Muitas vezes, contudo, o diretor parece ter perdido a frieza calculista que o caracterizava, como quando quis contratar Audrey Hepburn para o papel de Josephine (imagine-se sua reação ao saber que apareceria nua, em meio a uma orgia, logo em sua primeira cena).

Minúcia em quantidades nababescas: perdendo-se em Napoleão.
Kubrick queimou em pesquisa o que equivaleria hoje a uns US$ 4 milhões da Metro-Goldwyn-Mayer, que tirou o time de campo depois de um par de anos. O orçamento proposto à época, em valores ajustados, seria de US$ 33 milhões. Mas é apenas um ajuste de câmbio. Gente do setor estima que um filme na escala planejada por Kubrick – conte aí os cachês de Peter O’Toole, Alec Guinness e Jean-Paul Belmondo, além das diárias dos milhares de soldados romenos que reconstituiriam as cenas de batalha – entraria fácil na casa dos nove dígitos. Há cerca de 32 mil fotos de pesquisa, entre roupas e locações. Não à toa, a maioria dos estúdios preferiu não dar o sinal verde.

O livro é tão megalomaníaco quanto o projeto de filme – com a óbvia diferença de que ele, de fato, existe. Os detalhes da manufatura podem ser vistos no vídeo abaixo, da Taschen. São na verdade 1o livros que ficam guardados dentro de um enorme tomo de páginas vazadas – um estojo. Levou cerca de seis anos desde a concepção pelo estúdio francês M/M e a editora Alison Castle até se tornar realidade. O recheio contém provavelmente mais do que qualquer fã minimamente são de Kubrick pode querer: referências, roteiro, detalhes de produção (de um filme não-produzido), notas, correspondência, cronologia, notas sobre o texto, figurinos, locações e imagens diversas. O comprador ainda ganha acesso a um arquivo online de milhares de itens napoleônicos. É, mais que um livro para ler, um livro para ter.
Não que seja artigo para muitos, claro: apenas mil exemplares dessa sandice editorial serão impressos. Dá para alugar um cinema por um dia e fazer uma maratona com a filmografia completa (e existente) de Kubrick. Gosto não se discute.
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