
Fernanda Montenegro: olhar penetrante.
Fui abduzida pela Fernandona. Não esperava nada, o convite surgiu na surpresa. Quando vi já estava me sentando em uma das apertadas cadeiras do teatro do Fashion Mall, prestes a ver Fernanda Montenegro “monologar” com trechos de textos de Simone de Beauvoir na peça Viver sem tempos mortos. As luzes se apagaram e entrou ela, aquela senhora de 80 anos elegante à beça e que transborda segurança na voz, na postura e no olhar. Bom, quando digo que fui abduzida me refiro justamente ao olhar. Ah, maldito palco, você faz isso com nós, plateia – para mim Fernandona estava num papo reto comigo, ainda que a sinfonia de tossidas do público me fizesse lembrar de vez em quando de onde estava.
Os olhões da Fernanda pareciam brilhar, e ajudavam a boca a despejar com serenidade as desventuras de Simone em primeira pessoa. As cervejinhas da happy hour ajudaram a mergulhar naquele mundo sartreano de versos pouco convencionais, onde amor a dois rima com orgias a muitos, onde a liberdade questiona todos os valores burgueses de uma França aborrecida durante décadas do século XX.
Nunca li Simone. Mas Simone sempre me rondou. Quando fui a Paris, eu, que nunca entendi esse mania de visitar cemitério como programa turístico, fui visitar os túmulos de Sartre e Simone em Montparnasse sem ter um motivo claro para isso. Uma tia psicóloga é fã e sempre me tentou a lê-la, sobretudo O segundo sexo. Mas sabe como é, participo da comunidade do Livreiro “E a pilha só aumenta”, então Simone foi ficando lá embaixo diante das outras prioridades que foram surgindo. Mas não era só isso. Acabava ligando à figura intelectual de Simone àquele feminismo que teve seu valor no século XX (e que nos ajudou muito a sermos como somos hoje), mas agora soa meio datado, pelo menos para mim. Mesmo sem ler, achava que ia ter com ela uma relação parecida com a que tenho com Madame Lispector: um interesse enorme por sua trajetória, sua história de vida, que não é proporcional à paixão com que me entrego às páginas de seus contos e romances (sorry, fãs de Clarice, gosto é gosto).
Fernandona me fez lembrar que Simone não estava a serviço do existencialismo e do feminismo, mas usava os dois -ismos como ingredientes fundamentais na tal busca da liberdade. Logo ela, a grande dama do teatro brasileiro, que também não está exatamente no meu top 10 de ídolos (não só porque nunca me sensibilizei muito com sua interpretação, mas sobretudo pelo endeusamento exagerado dos outros).
Pois é, nossa relação com essas figuras acabam sendo muito levadas pelo olhar dos outros. Mas enquanto estava ali, Fernandona e eu sem intermediários, achei que ela realizou muito bem a tarefa de me passar a mensagem de Simone. Não só a mim. A peça já viajou muito por aí, e teve sua primeira temporada num circuito que varou a Baixada Fluminense, com direito a debate pós-encenação em que a própria Fernanda elogiou a qualidade das perguntas. Aos 80 anos, a atriz se dispôs a correr a periferia para lembrar a todos que, a despeito do teatro elitista que temos hoje, a mensagem libertária de Simone encontra eco em qualquer lugar.
Graças a tudo isso, Simone vai ganhar várias posições na ordem da minha pilha de livros não lidos. Valeu, Fernandona.
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Alguns livros autobiográficos de Simone de Beauvoir (clique nas capas para saber mais detalhes):
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Nunca terminei de ler memórias de uma moça bem comportada ,o que para mim é uma tristeza pois não consegui encontrar outro exemplar,
Entendo, Flávia. É por este mesmo que pretendo começar. Espero que o texto tenha te estimulado a arrumar outro exemplar para concluir a leitura. Abraço!
Legal, Helena, você me incentivou a ler a Simone, logo eu, machista, que só li romances e peças do Sartre.