Prêmio Portugal Telecom: trecho de ‘Ó’, de Nuno Ramos

Postado por Douglas Duarte em 12 de novembro, às 12:12 em Notícias  |  Sem Comentários
Ramos: objeto literário não-identificado

Ramos: objeto literário não-identificado

Poesia, ensaio, crônica, crítica, conto… as matérias nos jornais recorreram a um amplo espectro de palavras para tentar definir Ó, livro de Nuno Ramos que levou, na noite de terça, o primeiro lugar do Prêmio Portugal Telecom, no valor de R$ 100 mil. Como não lemos o livro (ainda) e porque, no fim das contas, não se lê rótulo, mas o livro em si, repassamos ao leitor um trecho do livro (essa sim um definição inquestionável) para que vocês possam começar a pensar se gostam o não do que quer que seja a obra de Ramos. Mais tarde publicamos um trecho de Acenos e afagos, de João Gilberto Noll, ganhador do segundo lugar.

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Trecho de Ó, de Nuno Ramos (editora Iluminuras)

24. Sétimo Ó

Entre as coisas que perdi não está o desejo de perder; entre as coisas que esqueci não está o desejo de esquecer. Estou pronto para sequer perder, como quem recolhe um jardim de troncos secos e chupa as uvas depois de passas, novo num envelhecimento renovado. Estou pronto para me livrar do cansaço de fazer, do cansaço de nascer a cada segundo para um segundo diferente, pronto para dormir, enfim, um sono feito de matéria e não de símbolo, de tato e não de devaneio, um sono ao peso misturado.

Como poderia saber que o fruto que agora ativa em minha boca um lago inteiro de salitre e de hortelã, que traz a pez do meu passado, com seu misto de promessa e arrependimento, à minha narina delicada, como poderia saber que só morrendo para este fruto eu de fato floresceria, espalhando então minhas sementes – não no tronco e no degredo, não na ânsia expectante pelo sentido mas na ruga, na face imóvel, antiga, na cova sorridente fitando o céu sem medo. Assim te olho, te olho a todos, desde a boca desdentada dos meus olhos, desde a branca jabuticaba que envolve minha retina, desde a calma definitiva da distância, corpórea como cabe a quem morre, mas afastada sempre, guardada em seu azul constante.

Eu já fui novo mas agora não tenho medo, e repito a quem quiser ouvir – isto que aconteceu a vocês não acontecerá comigo. Não perderei a clareza da visão, o desejo de morder, o gosto de urinar, pois afastarei antes meu próprio desejo de ver, de morder e de urinar, como quem recolhe a rede sem peixes e desiste de lançá-la ao mar. Não pergunto mais às coisas se têm forma, nome. Me divirto com minha própria miopia e guardo as propriedades do que é físico em alguma coisa que não é tato e não é vista – é sono e confusão cansada, é a gaga frase de uma alegria estranha, é alguma coisa que esqueci agora.

E não peço mais que seja inteiro o vaso quebradiço onde colaram as estrelas, não peço que seja meu mas que me abandone e deixe, junto à antiga cal do muro que foi branco, junto ao tronco desfolhado onde havia folhas verdes, junto àquela casa onde morava gente, junto àquele livro que alguém lia.

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