Esse ano, quando ficou-se sabendo que, pela enésima vez, o mexicano Carlos Fuentes não viria, dessa vez para a Flip, uma polemiqueta no meio literário eclodiu. Basicamente, muitos diziam “e daí?” Em que pese a obra do autor de A morte de Artemio Cruz, a verdade é que a literatura mexicana há muito não depende de seu nome. Mario Bellatín, mexicano que veio para a Flip esse ano, é um entre muitos.
Poderíamos ter escolhido o erudito Juan Villoro, talentoso tanto para a ficção quanto para a sorte de jornalismo mais-que-literário que pratica nas revistas Gatopardo e Letras Libres. Ou Fabricio Mejía Madrid, de noveletas modernas, urgentes, como El rencor e Hombre al água. Ou Bernardo Fernández, o Bef , e seus impressionantes contos e quadrinhos sobre mexicanos subalternos migrando para outros… planetas. Ou Guadalupe Nettel. Ou Antonio Ortuño e sua acre El buscador cabezas. O México está pululando de bons escritores e não se publicou no Brasil sequer um livro de alguém fundamental como o decano Carlos Monsiváis.
Nesse dream team de autores, um dos nomes destacados é o de Guillermo Fadanelli. Seus livros cheiram às ruas de um DF, a capital, e retratam um México tentando – muitas vezes para fracassar – romper com seus esquemas antigos, suas paixões antigas, seus preconceitos antigos. A cidade não é um cenário. É um ente. E um ente não muito amigável, como o que atormenta o protagonista de Malacara, que se divide entre duas ideias fixas: menininhas de colégio e matar. Matar alguém, não importa quem. Fadanelli fala um pouco de seus livros aqui.
É um mundo sem deuses ou utopias o de Fadanelli, que fala disso nesse delicioso bate-boca na Letras Libres, mas nem por isso desesperançado. É isso que dá o fio libertário, modernizador, de seus livros e contos. Mas como se vê adiante, nesse Interroguem Samanatha, que você pode ler abaixo ou baixar em PDF, a revolução dos costumes pode vir pelas piores intenções possíveis.
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Interroguem Samantha
Guillermo Fadanelli
Se sua esposa não tivesse morrido, podia ajudar a limpar as janelas da copa. Não tinham nem cinco anos vivendo no apartamento quando numa manhã de domingo ela derrapou nos degraus e fraturou o crânio. Adolfo não entendia por qual razão as vidraças de uma janela que ficava sempre fechada se imundeciam dessa forma. Podia entender que os tacos do assoalho ficassem opacos depois de receber as pisadas dos inquilinos, mas as vidraças? Era quinta e sua filha Samantha não voltaria da escola antes da uma. Comeriam a mesma comida do dia anterior, conversariam a respeito de certas obrigações de Samantha e depois ele iria trabalhar. Como podia estar tão cansado aos trinta e nove anos se dedicava a maior parte do tempo a atividades intelectuais? Se fosse coveiro ou operário entenderia, mas qual a razão para que um jornalista acordasse e dormisse todos os dias com tal mau humor? Na opinião de Adolfo, ambos estados de ânimo estavam intimamente ligados: o esgotamento nublava sua personalidade e o convertia num ser irascível.
Com que gosto estilhaçaria as vidraças para não ter que limpá-las. Dois dias antes tinha tido uma conversa com o recém-nomeado diretor do jornal a respeito das novas obrigações dos empregados da seção de cultura. Foi uma reunião desagradável porque, em vez de falar precisamente sobre as novas funções destes empregados, o diretor decidiu contar a ele as minúcias de uma aventura vivida na noite anterior com uma atriz de tevê. Adolfo não ficou impressionado, mas entediado, e queria que a reunião não se esticasse até a meia-noite. Por que tomou a decisão de limpar as vidraças? Por que em uma manhã se está disposto a fazer um trabalho desses sem saber exatamente qual a causa? Ir ao barbeiro cortar o cabelo parecia um assunto bem mais urgente.
Uns minutos depois do meio-dia a campainha do telefone distraiu Adolfo de suas ruminações. Era uma ligação da diretora do colégio onde Samantha estudava. A mulher exigia a presença imediata de Adolfo nas instalações do colégio, pois sua filha tinha cometido um ato cuja gravidade não permitia que fosse tratado rapidamente. Adolfo pôs uma camisa branca, desodorante e um pouco de fixador no cabelo. Estava farto de sua cabeleira desordenada. Com certeza muitos dias passariam antes que a tesoura resolvesse o assunto. Como o novo diretor pode imaginar que um homem como Adolfo poderia estar interessado em seus romances? Abandonaria esse emprego para sempre tão logo recebesse uma boa oferta. Na verdade esperava para qualquer momento a ligação de um amigo que confirmaria a possibilidade de ele trabalhar como repórter cultural num canal de tevê.
Desceu os três andares que separavam sua casa da rua sem parar, como era seu costume, para fuçar dentro da caixa de correspondência. O que uma menina de 11 anos poderia ter feito para que a diretora não quisesse tratar do assunto pelo telefone. O mais provável era que Samantha tivesse quebrado alguma coisa, prejuízo que seria sem dúvida pago por Adolfo. O colégio ficava a algumas quadras de casa, de modo que em dez minutos estava cruzando a porta da direção. Já dentro do gabinete se deparou com uma cena inesperada: estava junto da vitrine que protegia a bandeira nacional do pó, com a cara séria, olhando para o chão. No canto oposto um casal de semblante aflito e condição humilde olhava a cena com curiosidade. A diretora do colégio deu alguns passos adiante de sua mesa para receber o recém-chegado e pediu que ele ficasse ao lado de sua filha. O protocolo atiçou o mau humor de Adolfo. Primeiro o diretor do jornal fazendo dele cúmplice de seus romances, depois a estúpida decisão de limpar as vidraças e agora isso. Por que sua filha parecia tão amedrontada? A diretora explicou-lhe o acontecido durante o recreio das dez da manhã. Sua filha tinha se trancado com outro aluno em um reservado do banheiro. Um professor, por sorte alertado pelos outros estudantes, havia descoberto os dois no momento de realizar o coito. A diretora pediu que mantivesse a calma ainda que Adolfo não tivesse expressado qualquer sentimento. Os pais do aluno que tinha realizado o coito com Samantha estavam ali para responder pelas consequências que um ato tão vergonhoso poderia desatar. A julgar pela aparência, haviam deixado seus serviços para se apresentarem na escola. Ele vestia um macacão azul marinho e ela um pano no cabelo. As palavras coito e vergonhoso foram pronunciadas pela diretora com certa ênfase. Adolfo, que conhecia bem o gênio de sua filha, estava intrigado com seu comportamento. Por que não se defendia? A diretora explicou que temendo uma reação violenta de sua parte preferiu manter o estudante envolvido em um lugar distante do gabinete.
— Não entendo ainda qual o problema — disse Adolfo em tom neutro. Suas palavras despertaram uma leve irritação no rosto dos presentes. Esperavam uma reação bem tão diferente da parte do pai de Samantha. O quê? Por acaso não se importava com a filha?
— São crianças! — exclamou a diretora.
Adolfo se perguntou como a diretora podia ser tão jovem e tão velha ao mesmo tempo. Passou a mão no cabelo da filha para que todos soubessem que estava do seu lado. Quanto teria que pagar se Samantha tivesse quebrado algum material do laboratório? Ou a própria vitrine onde guardavam a bandeira e cujos vidros pareciam ser caríssimos. A diretora perguntou então pela mãe de Samantha. O pó de arroz não conseguia ocultar a cor de suas bochechas nem a pequena pinta ao lado dos lábios. Adolfo preferiu não responder já que ao se interar da orfandade materna de Samantha, a diretora tomaria a resposta como um atenuante. De forma alguma tornaria as coisas mais fáceis.
— Foi no banheiro dos homens ou no das mulheres? — perguntou Adolfo a sua filha em um tom cortês, conciliador.
— Isso não tem importância — interrompeu a diretora. Ocupava o cargo há dois anos e nunca tinha enfrentado situação parecida.
— No de mulheres — respondeu Samantha. Seu tom de voz delatava que havia chorado.
— Se foi durante o recreio e no banheiro das mulheres não acredito que minha filha tenha feito nada de errado.
— Interrogamos os meninos e quero lhe dizer, meu estimado senhor, que houve penetração. — Adolfo recordou que também o diretor do jornal o havia chamado de estimado senhor antes de contar sobre as aventuras com a atriz de tevê. Por que a diretora disse interrogamos? Quantas pessoas haviam acossado sua filha com perguntas incômodas? Voltou a se recriminar por sua falta de coragem: se tivesse, teria se levantado e deixado o diretor com a palavra na boca.
— A senhora vai expulsar minha filha do colégio?
— Estamos considerando isso — disse ela apenas movendo os lábios.
— Quando terminar de considerar me avise. Boa tarde — Adolfo tomou sua filha pela mão e deixou a direção. Cruzaram em silêncio as sete ruas entre a casa e a escola. Uma vez em casa, Adolfo informou Samantha de que de forma alguma ela ficaria sem castigo.
— Você tem que terminar de limpar as janelas da copa — disse. Havia encontrado um pretexto magnífico para deixar de fazer o que havia começado de manhã por iniciativa própria.
— Sim papai, e você tem que cortar o cabelo.
Na semana seguinte, Adolfo faria quarenta anos e ainda não sabia se isso lhe causaria uma depressão. Antes de sair beijou Samantha no rosto. A tarde começava a ficar nublada e o taxi que o levaria ao trabalho estava a ponto de aparecer diante dos olhos.
(Tradução de Douglas Duarte)
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