Kurt Vonnegut ressuscita com publicação de inéditos

Postado por O Livreiro em 19 de outubro, às 16:34 em Notícias  |  Sem Comentários
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Vonnegut: morto, mas vivo (e rentável) (Foto: divulgação)

Kurt Vonnegut, o cáustico autor de livros como TimequakeMatadouro 5, Café da manhã dos campeões e Deus o abençoe, Dr. Kevorkian, morreu em 2007, mas sua obra – ou a indústria em torno dela – continua funcionando a todo vapor. Sai amanhã nos EUA uma nova coleção de contos inéditos até agora, Look at the birdie! (”Olha o passarinho”), mais um passo da família na divulgação da obra do grande escritor americano (ou mais uma exumação do que Vonnegut considerava material de segunda e não queria ver publicado; depende do seu ponto de vista). Fato é que dois dos contos saíram na íntegra na imprensa americana. O que dá título ao livro, no Los Angeles Times, e Shout about it from the housetops (”Berre sobre isso desde o telhado”, numa canhestra tradução literal), na Vanity Fair. Um pedacinho de Olha o passarinho:

Estava sentado num bar noite dessas, falando razoavelmente alto sobre uma pessoa a quem odeio. Então um homem barbudo se sentou ao meu lado e disse de forma discreta: “Por que você não manda matá-lo?”

“Já pensei nisso,” eu disse. “Não pense que não”.

“Deixe eu te ajudar a pensar nisso com clareza”, ele disse. Sua voz era profunda. Ele tinha o focinho grande. Usava terno preto fora de moda e gravata estreita. Sua pequena boca era obscena. “Você está olhando essa situação através de uma névoa vermelha de ódio”, ele disse. “Você precisa da cautela e perspicácia de um consultor de assassinatos que possa planejar o serviço para você e te economizar uma visita desnecessária ao xadrez”.

“Onde encontro um?”, eu disse.

“Você já encontrou um”, ele disse.

Vonnegut era conhecido por ler e reler seus originais diversas vezes. Era, até, um obsessivo: escrevia e reescrevia a mão, depois encaminhava o manuscrito (por correio) para uma datilógrafa de confiança, revisava novamente, rasurava, reenviava as resmas à mesma mulher e só então para seus agentes e editores. Por que será que Olha o passarinho só vem ver a luz do dia agora?

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