
"Nem sei se a pessoa ainda está bem, se piorou de novo, se morreu... Mas a frase continua lá. Promessa? Ou só a brincadeira de um gaiato com as sobras de uma reforma? Taí o maior mistério de Lisboa."
Em Portugal para lançar Fala sério, professor! , Thalita Rebouças tem usado as ferramentas da internet para tratar daquele tema inevitável que brasileiros adoram explorar quando vão à terrinha: a diferença de linguagem. Mas, apesar de descrever as situações com humor, como não poderia deixar de ser e pode-se ver na legenda da foto acima, a escritora vai além da simples “piada de português”. No post mais recente do seu blog, ela reflete sobre as diferenças culturais que geram as peculiaridades de linguagem. Ou seria o contrário?
Desde a minha primeira vez em solo lisboeta que escuto dos portugueses: “Não sabemos aproveitar a vida”, “somos um povo triste”. Eu discordo. Já entendi que, para eles, o mar (que no Brasil remete à alegria, festa, brincadeira, liberdade, paixão, verão) é sinônimo de tristeza, por conta da época das navegações, quando muitas mulheres perdiam seus homens para a imensidão azul, selvagem e desconhecida. É realmente triste. Mas isso não faz de Portugal do século XXI um país triste. Portugal é legal! Portugal é fixe, é giríssimo!

"Dizem que portugueses levam tudo ao pé da letra. Não é sempre verdade. Se levassem, o que fariam com a informação da frase da foto acima? Ri, fotografei e fiquei imaginando situações que poderiam acontecer no número 188. Uma pessoa poderia muito bem bater lá e dizer: 'Não aguento mais ver as baleias morrerem impunemente, temos que mudar isso'. Ué, se é qualquer assunto, é qualquer assunto."
De carona na reflexão da Thalita blogueira, O Livreiro resolveu conferir como fica a questão da diferença de linguagem na hora de publicar seus livros em Portugal. A escritora lança livros sobre e para adolescentes. Adolescentes – de onde for – usam muitas gírias. E se Brasil e Portugal usam muitas palavras em comum, não se pode dizer isso das gírias.
Resolvemos, então, bater um papo sobre isso com a editora da autora em Portugal (Raquel Dutra Lopes, da Editora Presença) e com a própria Thalita.
Existe uma adaptação da obra para o português de Portugal? É um processo complicado?
Thalita: Existe, sim, uma adaptação. Quem faz é a editora, o equivalente ao nosso preparador de originais aqui. Ela sofre. Eu sofro. Mas no fundo o processo é muito engraçado.
Raquel: Há certos casos em que não faz sentido “adaptar” a obra, por se perderem particularidades que, mais do que linguísticas, são culturais. Acabo de ler Leite Derramado, de Chico Buarque, e certamente não esperava que essa obra tivesse sido alterada para melhor compreensão do leitor português!
Nos livros da Thalita, porém, o que realmente conta é todo o espírito das histórias que ela nos oferece: histórias que se não aconteceram connosco, aconteceram certamente com uma irmã, uma amiga, uma colega – são universais. É essa universalidade que tentamos transmitir, não deixando que um ou outro vocábulo faça com que os leitores sintam que a Thalita escreve só para brasileiros. Ainda assim, não despojamos os livros da sua “brasileiridade”: a Malu continua a viver na Tijuca, faz viagens pelo Brasil, come comida brasileira… para além da adaptação ortográfica, temos o cuidado de adaptar certas expressões para que façam sentido para os leitores portugueses.
Vocês podem citar alguma adaptação curiosa?
Thalita: No Fala sério, professor!, que eu tô lançando agora, foi dificílimo explicar para eles que crianças chamam professores de tio, da mesma forma como chamam os pais dos amiguinhos. Descobri, com o livro, que a maneira carinhosa de chamar um professor por aqui é stor. Não é fofo? Ah, e teve o episódio do flanelinha. Em Fala sério, mãe a personagem diz que gosta da vaga da qual não sai nunca porque conhece o flanelinha, conversa com ele etc. Elas traduziram: “Gosto da vaga porque já conheço o paninho de limpeza, converso com o paninho de limpeza…”. Você imagina o quanto eu ri, né?
Raquel: É sempre motivo de muitos risos quando a Thalita nos visita, pois acabamos sempre por descobrir que uma coisa que uma de nós diga não quer dizer o mesmo para a outra!
Um exemplo óbvio está no título das obras: “Fala Sério!” transformou-se em “Que Cena!”, por ser uma expressão equivalente usada pelos adolescentes de cá. Complicações, na verdade, não há: adolescentes são adolescentes em toda a parte, deparam-se com os mesmos problemas – há sempre uma forma de dizer o mesmo por outras palavras!
Este post e seus comentários podem conter opiniões que não refletem o ponto de vista do Livreiro.

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