Caligrafia - Foto: Marco Antônia Teixeira
O escritor Umberto Eco, autor de “O Pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, escreveu um artigo para o jornal inglês Guardian em que sugere que a maior parte das crianças é incapaz de escrever a mão – a não ser em letra de forma -, como consequencia do uso ininterrupto de computadores e programas de bate-papo. Além disso, Umberto menciona entrevistas com professores que advertem que os estudantes cometem cada vez mais erros para soletrar as palavras.
O Livreiro aproveitou o artigo de Eco para suscitar o debate sobre os argumentos do autor. Para isso, convidamos dois membros do site – Lady Rasta e Rogério Abreu - para refletir sobre a questão. E, coincidentemente, ambos parecem concordar empolgadamente com a ideia de que o escritor italiano está sendo “saudosista”. Após ler a opinião de nossos livreiros, você pode também votar em nossa enquete: você acha que a tecnologia está prejudicando a escrita?
Em primeiro, Lady Rasta, “supercyber” assumida, que enxerga nos argumentos de Umberto Eco uma voz pouco ambientada às tecnologias do presente:
“Entendo o ponto de vista do Umberto Eco, e adoro a ideia de termos pessoas que praticam a arte da bela escrita como um hobby, da mesma forma que hipismo, remo. Mas acho que o raciocínio dele esbarra naquela história de que “antigo é bom”, “novo é ruim – ou não tão bom”, e neste caso está intimamente ligada com a questão dos nativos digitais e imigrantes digitais.
Eu sou “supercyber”, viciada em Twitter, mas tenho 40 anos – sou daquelas que não consegue corrigir uma petição (sou advogada) se ela não estiver impressa. Da mesma forma, se fico muito tempo sem escrever textos longos no computador, é comum precisar de caneta e papel pra escrever alguma reflexão.
No entanto, acho que os chamados “nativos digitais” não têm esse problema. Muito provavelmente vão reclamar que escrever à tinta (nossa, que termo antigo!) os desconcentra; e se bobear vão reclamar da falta do barulhinho do teclado.
Quanto à coordenação motora adquirida, acho que isso pode ser igualmente preconceito de imigrantes digitais. Você talvez não tenha a habilidade específica para desenhar letras num papel, mas certamente terá outras habilidades com os dedos por teclar muito. Há pesquisas afirmando que os jogos de videogame, quando utilizados parcimoniosamente, bien compris, desenvolvem a coordenação motora da criança. Imagino que o mesmo se dê com a digitação.
Vejo aí somente um problema: acho que as crianças estão teclando na internet sem orientação. Há cursos de datilografia (melhor dizendo, digitação) para computador, mas requer disciplina por parte da criança e do adulto dela responsável. Como sabemos que há poucas pessoas se enquadrando nessa situação, o mais provável é que ocorra um empobrecimento da, digamos, técnica de digitar – e nesse caso o Umberto Eco estaria correto.
Quanto à ortografia: pensei, pensei, e não concordo. Pela lógica, o teclado, justamente pelo fato de obrigar vc a soletrar mentalmente as palavras pra localizar as letras no teclado e digitá-las, faria justamente o contrário: obrigaria a pessoa a pensar mais na palavra. O que ocorre, acho eu, é que as pessoas estão lendo menos textos de qualidade, e com o advento de uma nova língua (que alguns chamam de “miguxês” mas eu prefiro chamar cyber) é muito possível que os jovens estejam confundindo a grafia das palavras por causa da falta de leitura aliada à leitura recorrente de textos nessa “nova língua”.
Em resumo: acho adorável que no futuro tenhamos pessoas que pratiquem a arte da caligrafia por esporte, mas não acho que estejamos mudando para algo pior. Estamos apenas mudando, como sempre ocorreu no mundo, e os imigrantes digitais têm um pouco de dificuldade em elaborar isso justamente porque tiveram que se adaptar à tecnologia ao invés de terem nascido com ela”.
Rogério Abreu, por sua vez, sugere um saudosismo no discurso de Umberto Eco, apesar de avaliar o presente com certa desilusão.
“A cada circunstância vivida, estamos a comparar o presente frio e seco com um passado repleto de nostalgia e coisa boa. Vale para o tipo de brincadeira no meio da rua, envolvendo pião, bola de gude, pipa, baleado, capitão, e tantas outras mais – algo difícil de acontecer nos tempos atuais, mesmo em grotões mais remotos.
Quem nunca ouviu uma vovozinha melancólica, olhos rasos e brilhantes, pensamento distante, a relatar a boa alimentação ofertada continuamente aos filhos, algo que os netos nem fazem questão de conhecer, a perder sanduíches, pizzas, lasanhas, salgados e doces diversos, servidos diuturnamente em lanchonetes pra lá de requintadas?
E, ao abrirmos o livro do passado até suas páginas amareladas de meados do século XX, temos que enaltecer relatos de postura, dicção, educação e instrução de primeira, o que aqui não se encontra mais.
Numa época em que a pior droga – além do cigarro – era inocentes borrifos de lança-perfume em donzelas sorridentes a circular desorientadas por salões repletos de foliões em clubes carnavalescos, ficam os saudosistas a valorizar sua época como a melhor vivida, face a tantas mudanças ocorridas com o passar dos tempos, a trazer no bojo uma gama de problemas, sem soluções aparentes.
Com o advento de páginas de relacionamentos via internet, a envolver pessoas de sexo e faixa etária distintos, podemos visualizar como a situação está caótica, visto a vastidão de nosso vocabulário.
Sem sombra de dúvida que essa situação irá merecer textos e mais textos, envolvendo mentes brilhantes mundo afora, principalmente em formulação de críticas ao abreviamento da escrita, até a total descaracterização da escrita a mão.
Eu, particularmente, acho que a evolução natural das coisas faz desaparecer valores a nós muitos caros, prevalecendo sempre um bom senso que, por mais criticado momentaneamente, se impõe ao longo dos anos, a se juntar a tantos itens antes esconjurados.
Realmente, merece reflexão a perda da escrita a mão, principalmente quando temos uma mãe – hoje aposentada – que desenhava com caneta tinteiro textos de compra e venda de casas e terrenos quase que diariamente, quando da lavratura das escrituras em enormes livros de capa dura no Cartório e Tabelionato de Notas, o qual administrava, enquanto seus netos mal conseguem redigir uma frase legível em esferográfica.
Mas, como em todos os outros itens citados acima, tudo sempre estará normalizado e nós, algumas décadas depois, quando muita coisa por nós vivenciada deixar de ser primordial, estaremos também a balbuciar em frases melancólicas “como era perfeito o mundo em nosso momento!”
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Acho que devemos separar os dois aspectos. Não li a entrevista e reflito a partir do que foi postado aqui.
1 – “a maior parte das crianças é incapaz de escrever a mão – a não ser em letra de forma”;
2 – “Umberto menciona entrevistas com professores que advertem que os estudantes cometem cada vez mais erros para soletrar as palavras”.
São duas coisas distintas. Assim como Lady Rasta, sou “imigrante” na área. Mas diferentemente da garotada, contabilizo mais tempo de prática de caligrafia e datilografia do que os 20 anos em que já estou na digitação. Minha realidade, hoje, é: perdi o domínio do lápis ou da caneta, inclusive da tinteiro que eu adorava. Minha letra ficou horrível. Estou quase equiparada às pessoas de “baixa cultura gráfica”, sejam alunos da alfabetização ou adultos de pouco domínio da “escrita”. Atenção: da escrita, não da leitura. Talvez poucos leitores saibam como se analisa “grafotecnicamente” uma escrita ou assinatura. Para estes, um lembrete: baixa cultura gráfica significa pouco domínio da escrita à mão.
Portanto, neste aspecto eu concordo com Umberto Eco porque também estou optando pelas “letras de forma”.
Quanto ao segundo ponto, quero crer que o grande pensador teve a fala interpretada de modo equivocado e/ou o impresso saiu truncado. O que faz alguém soletrar ou escrever inadequadamente é a falta de hábito de leitura. Aliás, escrever bem depende sempre de ler muito, como o próprio Humberto Eco declarou no livro Como se faz uma tese (edição da Perspectiva de 2005, página 9).
O que eu tenho observado é que as pessoas querem se expressar mas sentem preguiça de ler ou falta-lhes tempo. Escrevem qualquer coisa e teclam “enter” sem reler e verificar, por exemplo, se a pontuação utilizada vai permitir que o leitor entenda o sentido do que foi escrito. Neste exato momento estou pensando: será que estou pontuando adequadamente este longo texto?
Penso que foi por aí que nasceram as linguagens x ou y que infestam as mensagens na rede, seja o tradicional e-mail, as salas de bate papo, os blogs e o twitter.
Concordo com Rogério Abreu a respeito de, futuramente, nos lembrarmos melancolicamente de práticas que um dia dominamos. Então, olharemos para trás e concluiremos que Marx tinha razão quando cunhou o conceito de “alienação”. Nós também estamos perdendo o domínio de todas as fases da produção.
acredito que mesmo aceitando as novas tecnologias de informação e comunicação estamos também vivenciando tais anomalias nas escritas do alunado, principalmente no Ensino Médio, quando já deveria dominar a escrita como meio de interação social. hoje as distrações prevalecem como ocupação maior do tempo disponível do aluno. Como a distribuição do tempo e a ocupação do mesmo ficam a critério e a mercer dos mesmos nada os intimida ou os orienta a aproveitar o seu tempo para construção de uma educação sadia.
Tenho 28 anos e me considero um nativo digital. Hoje não uso a internet tanto quanto antes, mas percebo que isso é impossível, já que a própria está entre nós, nos obrigando a usá-las, e tenho que reconhecer: minha letra é horrível. Digitei esse texto todo em menos de dez segundos, mas minha mão pode doer dependendo do tempo que uso para escrever. E olha que tive aulas de caligrafia quando mais novo…
Mas concordo quando reclamam da leitura. Dizem que o micro faz as pessoas escrever de maneira pior. Concordo que melhor escrita das palavras está relacionada à leitura, mas o que a garotada tem lido hoje em dia, ao invés de passar horas no orkut?