António Lobo Antunes é desconcertante como seus livros. Como se vê no vídeo abaixo, pode ser um homem melancólico, o que talvez seja fruto de suas experiências como médico em Angola. Mas às vezes é capaz de tiradas de humor ferino ante o que considera absurdo da vida, do que se deve rir.
Talvez graças a esses claro-escuros seja difícil defini-lo e a seus livros. Para uns, como Peter Conrad, nesse ótimo perfil da revista americana New Yorker, Lobo Antunes tem obsessão pelo seu passado e o de Portugal. Já o próprio autor confessa a O Globo sequer saber o que é Portugal ou o que é Brasil. Diz que não se sente parte de qualquer identidade nacional.
Suas frases de feito já até viraram piada, como esse vídeo do programa de humorismo “Contemporâneos”, de Portugal, uma paródia do original que ilustra este post. Outra boa prova do olhar ao mesmo tempo perplexo e divertido está nesse breve relato do “Diário de Notícias” sobre uma palestra dele em Nova York. Primeiro faz a platéia rir descrevendo a “Odisséia”, de Homero, como a história de “um homem que chegou tarde a casa”. Logo depois, revela que decidiu ser escritor ao ver o cadáver de uma criança morta sendo levado para uma morgue.
Lobo Antunes guarda várias vozes dentro de si, uma característica marcante desde “Os cus de Judas”, melhor livro de sua primeira fase, até “Exortação aos crocodilos”, de 1999, e que parece traduzida com precisão no título de seu romance mais recente, “Eu sou legião”. Obras às vezes habitadas por uma dezena de personagens e com uma estrutura que prefere acolher a barulheira a organizá-la. O mundo, ele parece dizer, tampouco é organizado.
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