Divergência sobre universalidade da literatura

Postado por O Livreiro em 3 de julho, às 11:16 em Notícias  |  Sem Comentários

Atiq Rahimi (de chapéu) e Bernardo Carvalho (Foto: André Teixeira / Agência O Globo)

A pertinência da ideia de universalidade literária causou divergência de opiniões entre os escritores Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho, na segunda mesa do terceiro dia da Flip, mediada por Beatriz Resende. O embate ocorreu nesta sexta-feira (3) por volta das 12h. O autor de “Filho da Mãe”  disse que, em muitos países, a literatura é vista como geopolítica, para fortalecer identidades nacionais. O autor afegão defendeu a tese de que o escritor está além dos rótulos de nacionalidade, com vocação para destruir e ultrapassar fronteiras culturais com sua obra.

O editor Paulo Roberto Pires comentou em tempo real a mesa dos dois, utilizando o Twitter: “Rahimi e Bernardo discutem o que pode ser hoje uma literatura nacional”, e em seguida exemplifica as opiniões divergentes: “Literatura tb (também) tem geopolítica, lembra Bernardo. A palavra atravessa fronteiras, diz Rahimi”, para repetir e deixar uma pergunta no ar, feita originalmente pela mediadora: “pq (Por que) a literatura hoje é tão triste?”

No “Todoprosa”, blog de Sérgio Rodrigues, o escritor notou que a “química da mesa de Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho (…) não foi das mais potentes”, e acrescentou, depois de mostrar a discussão entre os dois:  “Alguma coisa tinha se perdido em mal-entendido na conversa. Entre as pontas desconectadas do escrever e do divulgar, entre o que é matéria de literatura e o que determina a geopolítica de sua difusão, o debate acabou meio embaçado.”

O G1 abordou os limites do realismo. Luciano Trigo, do blog “Máquina de escrever”, no mesmo site,  havia participado da entrevista coletiva dada pelo afegão e quis saber a opinião dele sobre “O caçador de pipas” e “O livreiro de Cabul”. Rahimi respondeu: “Não sou um crítico literário, mas o livro de Khaled Hosseini tem um aspecto interessante: ele toca na culpabilidade típica da cultura afegã. Já a jornalista Asne Saerstad faz um relato bem objetivo do que viu lá.”

Melina Dalboni, do blog “Prosa on line”, do jornal “O Globo”, também presente à entrevista coletiva, ressaltou o impacto que o livro de Rahimi “Syngué sabour: pedra de paciência”, o primeiro trabalho do escritor produzido originalmente na língua francesa, teve no Afeganistão.

“Boa parte dos afegãos não gostou do livro porque acham que eu apresentei todos os homens afegãos como impotentes e todas as mulheres como putas. Eu só quis mostrar a história de um casal.”

Do mesmo blog, Miguel Conde, que assistiu ao debate entre os dois, elogiou o antagonismo de ideias.

“Numa festa onde o ambiente conspira para uma celebração meio pasteurizada da força da literatura, essa intransigência trouxe uma dose bem vinda de conflito.”

Oposição a sentimento nacional

Bernardo Carvalho disse que o Brasil tem hoje um espírito de oposição a qualquer sentimento nacional, enquanto em outros países a relação com a literatura é mais “patriótica”. O escritor citou o caso do mercado editorial inglês. Carvalho considera a Inglaterra o modelo literário vigente, que insiste em proclamar o fim da literatura francesa.  Ele acredita existir uma espécie de fechamento geopolítico e linguístico que segmenta o mercado.

“Na França e Inglaterra, por exemplo, existe uma força provinciana em torno da produção literária local. Enquanto que os outros se defendem sistematicamente, a gente pensa que tem de ser internacionalista. E não estou falando de estilo, mas de política literária”, defendeu o escritor, que admitiu não acreditar em uma “universalidade da literatura”, bastante defendida por Atiq Rahimi. Carvalho foi enfático: “Existem modelos literários e uma guerra entre eles. Não existe passagem tranquila entre culturas”, sentenciou.

Universalidade da literatura

A história de vida de Rahimi, afegão em exílio opcional na França, e a crença no caráter errante da palavra foram os argumentos por ele utilizados para defender a ideia de uma literatura em que as fronteiras não são respeitadas.

“Meu país não desenvolveu esse conceito do que seria uma literatura genuinamente afegã.  Cresci inspirado na literatura estrangeira, sobretudo a francesa, e nos clássicos persas, que me dera o escopo do que sou hoje como escritor. ‘Os miseráveis’, meu primeiro livro estrangeiro lido, me impressionou muito, uma vez que no Afeganistão não há a arte do romance, somente da poesia e dos contos. Escrever romance é puxar ao máximo os limites da nacionalidade”, teorizou Rahimi.

Quando questionados obre a profusão de romances que apostam no realismo para falarem da violência e o porquê dessa opção largamente utilizada pelos escritores, Carvalho e Rahimi teorizaram sobre a própria literatura.

Realismo ou não realismo?

Bernardo Carvalho definiu sua escrita como “realista auto-reflexiva”, que se questiona a todo momento. O escritor explicou que, em “Filho da mãe”, São Petersburgo é narrado de forma realista, mas o questionamento dessa intenção existe o tempo todo.

“Sou contra a exigência do realismo, que parece ter virado condição para que um livro seja lido. Prefiro recriar a experiência real como ficção. Vou para os lugares viver a estranheza para sentir medo e, a partir dele, artificializar esse real”, explicou.

Já Atiq Rahimi argumentou desconhecer o conceito de realismo e chamou a realidade de “fluida”.

“Para existir, ela precisa ser contada. E se contamos, ela é destruída e, só assim, vira verdade literária”, concluiu.

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