Como escritores reinventam as próprias vidas

Postado por O Livreiro em 2 de julho, às 20:06 em Notícias  |  Sem Comentários

A verdade do escritor “nem sempre é a verdade dos fatos”, disse a escritora Tatiana Salem Levy, na terceira mesa da Flip de hoje, quarta-feira 2 de julho,“Verdades Inventadas”. Ao lado de Arnaldo Bloch e Sérgio Rodrigues, ela discutiu os limites entre ficção e realidade na literatura. A professora da UFRJ Beatriz Resende mediou o debate.

Tatiana, chamada de “literatura em estado puro” por Luciano Trigo, do blog “Máquina de escrever”, do G1, é autora de “As chaves de casa”, que combina memórias da família e personagens inventados. Ela explicou que pretendia se encontrar na literatura, e não escrever uma obra autobiográfica.

Para Trigo, no romance “A chave de casaela mergulha no passado da família – avós judeus turcos, pais comunistas – para produzir “um texto feminino, no bom sentido, e ligeiramente erótico”.

Ao começar a sua mesa, Arnaldo Bloch mostrou uma foto sua nu, com um ano, na capa da revista “Manchete”. Sobre a publicação, que pertencia a sua família, escreveu “Os Irmãos Karamabloch”.

Como lembrou Beatriz Resende, ele é personagem do livro e não pretende ter imparcialidade.

Segundo Bloch, a biografia definitiva é uma mentira, pois não reconhece as emoções e a subjetividade. “Almejar que um livro esgote a vida de uma pessoa é uma enorme pretensão”, disse ele, “a biografia definitiva tende a ser a versão mais pobre de uma história”, concluiu.

Bloch contou ainda que escrever o livro foi uma maneira de sair do “ventre da família” e enxergar o mundo com os próprios olhos.

Mais enfático, Sérgio Rodrigues afirmou que “a realidade não existe”, ela seria construída a partir da linguagem. O escritor também destacou que, ao contrário dos colegas de mesa, seu livro não passa por memórias pessoais.

“Não sou parente de Elza”, brincou, referindo-se ao personagem-título de seu livro, “Elza: a garota”, a história real de uma jovem militante assassinada a pedido da diretoria do Partido Comunista do Brasil em 1935.

No livro, um fictício ex-membro do partido narra a história para um jornalista.  Rodrigues disse que seu maior desafio foi tratar de uma história que se passa em um período de grande polarização entre esquerda e direita. O importante para ele não era apontar erros e acertos políticos, mas conseguir “a verdade mais humana que fosse possível contar”.

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